À Rio, numa terça-feira à noite, os salmões de aquacultura brilham sob os néones, os camarões “ardem” nas etiquetas… e, cá em baixo, um tabuleiro acinzentado exibe um nome durante muito tempo ignorado: “sardinha inteira”. Uma senhora idosa levanta o saco de plástico, espreita rapidamente e sorri. «Voltou a estar na moda», diz ela à caixa, meio divertida, meio orgulhosa. À sua volta, vários clientes param, hesitam, pegam no telemóvel para confirmar receitas. As sardinhas, outrora vistas como símbolo de mesa remediada, regressam devagar ao centro dos pratos brasileiros. Uma vingança discreta, quase silenciosa. Mas está a acontecer algo bem mais profundo.
De “peixe de pobre” a estrela discreta da mesa brasileira
Nas grandes cidades brasileiras, a sardinha fresca sai da sombra dos peixes “nobres”. Durante muito tempo catalogada como escolha de fim de mês, aparece hoje em destaque tanto nos supermercados populares como nas mercearias “botoque” de São Paulo. As etiquetas já não falam de “promoção”, mas de “fonte de proteína” e “ómega‑3”. A narrativa mudou. Este pequeno peixe cinzento, durante anos associado à vergonha social, começa a encarnar uma espécie de bom senso culinário: nutritivo, acessível, prático. Uma revanche tranquila sobre os tempos em que se escondia a lata de sardinhas no armário.
Num mercado de Belo Horizonte, João, 34 anos, conta que quase tinha banido a sardinha da sua cozinha. «Era o peixe do meu pai quando já não havia mais nada», diz ele, enquanto embrulha dois quilos frescos. Durante a pandemia, com os rendimentos a cair e os preços a disparar, volta a ela “por obrigação”. Descobre então que a sardinha local é controlada, pobre em mercúrio, cheia de cálcio, carregada de ácidos gordos. Aprende a grelhá-la no forno com limão, a prepará-la em escabeche, a fazer tostas rápidas. Hoje ri-se: «Aquilo que eu tinha vergonha de comer é o que nos mantém saudáveis.» E não é o único a fazer este caminho.
Esta viragem deve-se a uma mistura de realidade económica e consciência nutricional. Quando o preço da carne explode no Brasil, as famílias procuram alternativas que alimentem a sério. A sardinha, antes desprezada, cumpre quase todos os requisitos: local, abundante, barata, rica em proteínas completas, vitamina D, B12, iodo, selénio. Tem ainda um argumento silencioso: por estar muito em baixo na cadeia alimentar e viver pouco tempo, acumula menos metais pesados do que peixes maiores. Aos poucos, campanhas de saúde pública, nutricionistas no Instagram e cozinheiros de bairro acabam por dizer o mesmo. Este peixe “pobre” começa a saber a bom senso colectivo.
Como os brasileiros estão a cozinhar sardinhas de forma diferente - e a adorar
A mudança não acontece só no mercado, mas também nas panelas. Na Zona Norte do Rio, vêem-se cada vez mais tabuleiros de sardinhas inteiras a entrar em fornos a gás antigos, simplesmente regadas com azeite, alho esmagado, limão e um pouco de farinha de mandioca para dar crocância. Sem gestos complicados, sem marinadas “instagramáveis”: apenas peixe fresco, bem limpo, cozinhado rapidamente em lume muito alto para manter a carne suculenta. Muitos redescobrem também a lata de sardinhas como base expressa para massas, recheios de tapioca ou tostas da manhã. Uma espécie de cozinha do real, que já não tenta imitar os restaurantes de sushi dos bairros ricos.
Os erros são frequentes - e durante muito tempo alimentaram a má reputação do peixe. Deixa-se a sardinha demasiado tempo ao lume, ela seca, desfaz-se, cheira “forte”. Compra-se já duvidosa, com olhos opacos e cheiro ácido, e depois convence-se de que «é normal, é sardinha». Muitos afogam-na em molhos industriais para “esconder o sabor”, quando o verdadeiro segredo é quase o inverso: poucos ingredientes, cozedura curta, lume vivo, descanso de alguns minutos antes de servir. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas quem perde tempo uma ou duas vezes por semana conta muitas vezes a mesma surpresa: este peixe custa três vezes menos e dá tanto prazer como um filete “de topo”.
Os nutricionistas, por sua vez, não acreditam que tenham tido de lutar tanto para reabilitar a sardinha.
«Quando digo aos meus pacientes que uma simples sardinha assada pode rivalizar nutricionalmente com suplementos caríssimos, olham para mim como se eu estivesse a brincar», conta a dietista carioca Marina Lopes. «Depois voltam três meses mais tarde, com o colesterol melhorado, o orçamento mais leve e um bocadinho orgulhosos de si.»
A resistência vem muitas vezes de uma mistura de preconceitos sociais e medo das espinhas, mais do que de um verdadeiro problema de qualidade. Uma sardinha muito fresca, bem preparada, não tem nada a ver com as memórias de infância de latas amassadas em pão seco.
- Escolher sardinhas com olhos brilhantes e um cheiro leve a mar, nunca acre.
- Privilegiar pescas locais e sazonais, muitas vezes mais reguladas e mais baratas.
- Começar por receitas simples: assada no forno, em escabeche, ou em pasta para barrar.
- Manter a pele e as espinhas pequenas para aproveitar o cálcio e os ómega‑3.
- Usar sardinhas em conserva como “salva‑refeições” para pratos rápidos, sem culpa.
A mudança maior por trás do novo amor do Brasil por um peixe humilde
Este regresso da sardinha diz algo mais amplo sobre a forma como os brasileiros estão a repensar o prato. Muitos perceberam que comer “como na publicidade” não é sustentável, nem para a carteira, nem para o planeta. Peixes pequenos, gordos e abundantes encaixam melhor numa pesca sustentável do que as espécies‑estrela sobreexploradas. Nos bairros populares, este discurso ecológico nem sempre vem em primeiro lugar. Entra quase de mansinho, através da procura de segurança alimentar e de receitas que sustentem o estômago sem rebentar a conta da electricidade e do gás. A sardinha avança neste cenário como um símbolo discreto de inteligência colectiva.
As conversas à mesa também mudam. Onde antes se escondia o prato de sardinhas por vergonha, começa-se a assumi-lo - às vezes com um toque de orgulho irónico. «É peixe de pobre, mas olha para as minhas análises», brinca um pai de família de Recife. As redes sociais aceleram esta inversão: vídeos de marmitas fit à base de sardinha, desafios de refeições por menos de 10 reais, chefs de favela a levar este peixe para menus mais ambiciosos. Uma cozinha que já não tenta apagar de onde vem, mas transforma um estigma em vantagem. A sardinha torna-se um marcador cultural tanto quanto um alimento.
Para o leitor, a questão depressa se torna muito concreta. Aceitamos reavaliar aquilo que durante anos classificámos como “de baixa qualidade”? Estamos dispostos a trocar parte da carne vermelha caríssima, dos filetes exóticos e do sushi de centro comercial por um peixe modesto, local, que alimenta de verdade? A viragem brasileira em torno da sardinha não é apenas uma tendência food. Toca no orgulho, na confiança nas cadeias de abastecimento, na relação íntima com o que se põe na mesa. E se o futuro da nossa alimentação passasse menos por “superalimentos” importados e mais por estes peixes que os nossos avós já conheciam?
Pode dar vontade de sorrir ao ver este pequeno peixe cinzento voltar ao centro do palco. No entanto, ele concentra tudo o que hoje se debate no prato: custo de vida, saúde, ecologia, classe social, até nostalgia. Os brasileiros que enchem o cesto com sardinhas não estão apenas a seguir uma moda: estão a testar, à sua escala, outra ideia de “comer bem”. Longe de slogans de marketing, dietas milagrosas e fotografias polidas. Aqui cheira a cozinha a fumegar, a mãos a limpar, a conversa à mesa ao fim do dia. Fica uma pergunta um pouco incómoda: se este peixe “de pobre” cumpre tantos requisitos, o que é que ainda nos impede de o tornar um pilar das nossas próprias refeições?
| Ponto‑chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Revanche da sardinha | Antigo “peixe de pobre” transformado numa escolha assumida, nutritiva e segura | Mudar o olhar sobre um alimento barato e subestimado |
| Potência nutricional | Rica em proteínas, ómega‑3, cálcio, vitaminas B12 e D; baixa em metais pesados | Melhorar a saúde sem rebentar o orçamento das compras |
| Cozinha simples e realista | Receitas rápidas, cozedura curta, ingredientes básicos, pouco equipamento | Encontrar ideias concretas para refeições do dia a dia mais inteligentes |
FAQ:
- A sardinha ainda é considerada “peixe de pobre” no Brasil? Cada vez menos. Muitas famílias vêem-na hoje como uma escolha inteligente e assumida: barata, local e genuinamente saudável.
- As sardinhas brasileiras são seguras em termos de mercúrio e poluição? Em geral, sim: por serem pequenas, viverem pouco e estarem em baixo na cadeia alimentar, acumulam menos contaminantes do que grandes predadores.
- Qual é a forma mais fácil de começar a comer mais sardinhas? Comece com sardinhas em conserva em azeite, em tostas ou misturadas na massa, e depois experimente sardinhas inteiras assadas no forno com alho e limão.
- Tenho mesmo de comer as espinhas para obter os benefícios? As espinhas pequenas e macias de sardinhas em conserva ou bem cozinhadas são comestíveis e acrescentam cálcio, mas também se beneficia muito ao comer apenas a carne.
- As sardinhas podem realisticamente substituir a carne nas refeições brasileiras? Não substituirão todos os pratos, mas podem cobrir grande parte das necessidades diárias de proteína a um custo muito menor, sobretudo quando o dinheiro aperta.
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