Vous abre três separadores ao mesmo tempo, responde a uma mensagem de voz enquanto faz scroll num ficheiro de Excel, ao mesmo tempo que tenta acompanhar uma reunião por vídeo a meio gás. A cabeça começa a andar à roda, os ombros ficam tensos. E, apesar desta agitação, às 17h a sensação é a mesma: nada de verdadeiramente importante avançou. Trabalhou o tempo todo, mas em tudo e em nada ao mesmo tempo. A verdade desconfortável é que as pessoas que se sentem sobrecarregadas não fazem multitasking a mais. Fazem multitasking no momento errado. E esse pormenor muda tudo.
Porque é que fazemos multitasking precisamente quando não devíamos
Quando a pressão sobe, o cérebro procura saídas rápidas. Atira-se ao que mexe mais: notificações, pedidos urgentes, a pequena tarefa rápida que dá a ilusão de progresso. Saltamos de uma coisa para outra como se fossem pedras escorregadias, sem nunca assentar o pé em lado nenhum a sério. No momento, isto dá uma falsa sensação de controlo. Marcamos coisas pequenas como feitas, respondemos a toda a gente, sentimo-nos “reactivos”. Mas, por baixo, há outra coisa: o medo de atacar a tarefa realmente difícil, a que exige concentração prolongada.
Todos já vivemos aquele momento em que abrimos um documento estratégico… e o fechamos ao fim de 30 segundos “só para responder a dois emails antes”. Esses dois emails viram dez, depois uma mensagem no Teams, depois uma pesquisa no Google, depois a notificação de uma encomenda entregue. Um estudo da Universidade da Califórnia já mostrava que cada interrupção custa, em média, 23 minutos para recuperar o nível de concentração inicial. Imagine essa soma repetida 20 vezes por dia. Não é só tempo perdido: é fadiga mental acumulada, que faz com que, a meio da tarde, já não haja energia para se concentrar em nada profundo.
A lógica por trás deste caos é bastante simples. O cérebro adora recompensa imediata e detesta desconforto cognitivo. Fazer multitasking com microtarefas - responder, verificar, clicar - é como engolir uma série de doces em vez de uma refeição a sério. Sentimo-nos ocupados, estimulados, às vezes até “produtivos”. Só que trabalhar numa tarefa complexa exige um modo totalmente diferente: tempo contínuo, sem micro-interrupções, com energia mental estável. Quando as pessoas sobrecarregadas fazem multitasking nesses momentos, destroem esse modo profundo. Deslocam a atenção no pior momento possível - aquele em que a continuidade faz toda a diferença entre avançar ou ficar a patinar. O problema não é apenas o multitasking, é o timing.
Aprender a escolher o bom momento para fazer várias coisas ao mesmo tempo
Fazer multitasking nem sempre é tóxico. O segredo é reservá-lo para tarefas mecânicas, rotineiras, que não precisam do cérebro a 100%. Ouvir um podcast enquanto dobra a roupa, dar respostas “sim/não” a convites durante um trajecto, organizar ficheiros enquanto está em espera ao telefone. Este tipo de dupla actividade assenta num princípio simples: só uma tarefa exige realmente pensamento; a outra é automática. Assim que há duas tarefas sérias ao mesmo tempo, a qualidade desaba e a fadiga sobe.
Uma dica concreta é dividir o dia em três categorias de momentos: foco profundo, logística leve, recuperação activa. Os períodos de foco profundo (muitas vezes de manhã para muita gente) são sagrados: uma única tarefa, notificações desligadas, poucos separadores abertos. A logística leve é o momento em que responde, organiza, acompanha - e aí pode existir multitasking controlado, em pequenos lotes. A recuperação activa são aqueles instantes em que faz algo manual ou repetitivo, deixando a mente vaguear ou alimentar-se suavemente. O objectivo não é ser um monge zen, mas escolher conscientemente o modo certo.
A armadilha clássica é deixar o dia decidir por si. O telemóvel vibra, então olha. A mensagem chega, então responde. Sem enquadramento, é sempre o pior momento que é invadido. É aí que a sensação de sobrecarga explode. Deixamos de mandar no que fazemos - e em quando. Quando começamos a dizer “agora estou em modo cérebro profundo, o resto espera 30 minutos”, a relação com o tempo muda. A agenda não se torna mágica, mas pelo menos cada modo tem o seu lugar, em vez de uma mistura permanente que esgota e ainda por cima dá culpa.
Micro-ajustes que mudam a sua relação com a sobrecarga
Um gesto muito concreto é planear as suas “janelas de distração autorizada”. Sim, a sério. Em vez de lutar o dia inteiro contra a vontade de abrir o Instagram ou responder instantaneamente a cada mensagem, decide de antemão: 10 minutos às 10h30, 10 minutos às 15h - é open bar de distrações e microtarefas. Fora desses períodos, está noutro modo. Este pequeno contrato consigo próprio tira boa parte da culpa e dá um enquadramento claro. É como dar um recreio ao seu cérebro hiperactivo.
Outro gesto: começar cada bloco de trabalho com uma frase escrita, simples, quase brutal. “Durante os próximos 25 minutos, só faço isto: finalizar a introdução do relatório.” Ter esta frase à vista serve de lembrete visual sempre que a mão escorrega para o telemóvel. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, o ano inteiro. Mas mesmo que o faça duas vezes na semana, a sensação muda. Ganha pelo menos alguns momentos sem dispersão total, algumas provas de que consegue avançar a sério quando protege o timing certo.
Os erros mais frequentes são quase sempre os mesmos: acreditar que se “ganha tempo” ao responder instantaneamente a tudo; abrir o email mal acorda e dar ao mundo exterior o poder de decidir o seu humor; começar uma tarefa difícil sem fechar as outras janelas “para o caso de”; ou ainda julgar-se duramente quando a concentração falha, o que só adiciona uma camada de stress. O tom interior conta. Falar consigo como falaria com um amigo cansado, em vez de um empregado preguiçoso, já muda a forma como gere estes descarrilamentos.
“Multitasking is the opportunity to screw up more than one thing at a time.” - Steve Uzzell
- Criar um ritual de início de bloco: uma bebida, um temporizador, uma frase escrita. O cérebro associa esse pequeno ritual a “modo concentração”.
- Agrupar as tarefas “multi”: respostas rápidas, confirmações, reservas, mensagens. Tratá-las em lote, não uma a uma ao longo do dia.
- Proteger 1 a 2 blocos sem multitasking por dia: mesmo 25 minutos, duas vezes, fazem uma diferença clara na sensação de controlo.
Repensar o orgulho de estar “sobrecarregado” e o verdadeiro calma por trás disso
Há uma espécie de prestígio discreto em dizer que se está sobrecarregado, sempre a fazer mil coisas. Dá a impressão de ser solicitado, útil, indispensável. No entanto, por trás dessa imagem, muitos contam a mesma história: um cérebro em migalhas, noites em que se faz scroll sem saber o que se está a ver, noites em que os pensamentos andam às voltas. O desafio não é apenas optimizar listas de tarefas; é recuperar uma sensação mais simples: “o que estou a fazer agora é voluntário”. Não estar a ser puxado em pedaços por dez mini-prioridades contraditórias.
A calma, na vida real, não se parece com um retiro silencioso nas montanhas. Parece-se mais com alguém que, mesmo numa semana cheia, sabe dizer: agora, durante 30 minutos, este projecto fica à frente de tudo o resto. Depois, durante 15 minutos, volto a estar contactável, trato do ruído do mundo. E assim sucessivamente. Dá dias que não são perfeitos, mas são mais legíveis. Menos pequenas traições a si próprio do tipo “tinha prometido trabalhar nisto e, mais uma vez, não o fiz”.
Mudar o timing do multitasking não resolve todos os problemas de carga de trabalho - longe disso. Mas devolve alguma geografia ao seu dia: zonas para pensar a sério, zonas para reagir, zonas para respirar. Esse recorte, por imperfeito que seja, reduz o ruído mental. Abre espaço para sentir o que realmente o sobrecarrega… e o que vem apenas da forma como salta de uma coisa para outra. Muitas vezes é nessa pequena diferença que aparece uma primeira liberdade: a de escolher para onde vai a sua atenção, em vez de a deixar ser sugada no pior momento.
| Ponto-chave | Detalhes | Porque é importante para os leitores |
|---|---|---|
| Separar “trabalho profundo” de tempo administrativo | Reserve 1–2 blocos por dia (30–60 minutos) para uma única tarefa exigente e empurre emails, chats e respostas rápidas para lotes administrativos separados. | Reduz a mudança constante de contexto, para que as tarefas grandes deixem de se arrastar durante dias e finalmente avancem. |
| Usar multitasking apenas em actividades de baixo risco | Combine uma tarefa automática (lavar roupa, deslocações, arrumar) com uma tarefa mental leve (podcast, notas de voz, mensagens rápidas), nunca duas tarefas complexas ao mesmo tempo. | Mantém a sensação de “aproveitar bem o tempo” sem queimar a energia mental necessária para trabalho sério. |
| Criar “janelas de distração” agendadas | Planeie 2–3 janelas curtas por dia para verificar redes sociais, notificações e mensagens não urgentes, em vez de reagir de imediato. | Devolve uma sensação de controlo e acalma a puxada constante para pegar no telemóvel a cada poucos minutos. |
FAQ
- O multitasking é sempre mau para a produtividade? Nem sempre. O problema aparece sobretudo quando as duas tarefas exigem pensamento real. Combinar uma actividade simples, quase automática, com uma tarefa leve pode funcionar bem - desde que as suas horas-chave de trabalho fiquem protegidas.
- Como sei se estou a fazer multitasking na altura errada? Se está a tocar numa tarefa importante mas, em poucos minutos, continua a saltar para email, chat ou telemóvel, essa é a altura errada. Deve estar em modo de tarefa única sempre que um erro seria caro ou o trabalho exigir foco a sério.
- Qual é um primeiro passo realista para mudar hábitos? Escolha amanhã um bloco de 25 minutos e decida com antecedência o que vai fazer e o que vai ignorar. Silencie notificações, feche separadores extra e trabalhe apenas nisso. Trate-o como uma pequena experiência, não como uma mudança de vida.
- E se o meu trabalho exigir que eu esteja sempre disponível? Muitos cargos exigem muita reactividade, mas mesmo assim muitas vezes dá para negociar micro-janelas de foco. Por exemplo: 20 minutos em que os colegas sabem que está “de cabeça baixa”, seguidos de 10 minutos totalmente acessível.
- Porque é que me sinto mais cansado nos dias em que faço muito multitasking? Cada mudança obriga o cérebro a recarregar contexto, fazendo-o trabalhar mais para o mesmo resultado. Esse esforço invisível acumula-se - por isso dias dispersos deixam muitas vezes uma sensação de exaustão sem satisfação real.
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