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Quem pensa frequentemente em alguém do passado muitas vezes não percebe que a mente está a tentar transmitir uma mensagem, diz um psicólogo.

Mulher jovem lendo à mesa com chá, caderno e fotos, em ambiente iluminado por janela.

Em plena terça-feira, ao acaso, está a fazer café e, de repente, um nome surge do nada. Um amigo antigo. Um crush de outros tempos. Alguém que não vê nem com quem fala há anos. Não está a ver fotografias antigas, não está a “investigar” ninguém online. Eles simplesmente aparecem, completos na sua mente, como se nunca tivessem ido embora. Sente aquele pequeno sobressalto no peito, a mistura de calor e desconforto. Porquê essa pessoa? Porquê agora? Sacode a ideia, responde a um e-mail, mas ela volta enquanto lava os dentes à noite. E depois outra vez, uma semana mais tarde, no comboio.

A certa altura, deixa de parecer aleatório. Começa a parecer que o seu cérebro lhe está a tocar no ombro. Em silêncio, teimosamente, insistentemente.

Quando o passado se recusa a ficar no passado

Os psicólogos dizem que, quando uma pessoa específica do seu passado continua a aparecer nos seus pensamentos, raramente é “só nostalgia”. A mente não carrega no replay sem motivo. Às vezes é arrependimento. Às vezes é algo por resolver. Às vezes é uma versão de si que existia ao lado dessa pessoa - e é essa versão que, na verdade, sente falta. A memória é apenas a porta de entrada.

O que parece ser um divagar mental aleatório pode ser uma mensagem interior bastante direta: algo no seu presente não está a encaixar, e o seu cérebro está a usar essa ligação antiga como ponto de referência. Uma comparação. Um sinalizador.

Veja-se o caso da Sara, 34 anos, que se deu por si a pensar constantemente numa amiga da universidade com quem não falava há uma década. “Foi estranho”, disse ela a uma terapeuta. “Nós nunca tivemos nada romântico. Só ficávamos acordadas até às 3 da manhã a falar sobre tudo.” Ao início, culpou a entrada nos trinta e a tendência para ficar sentimental. Mas os pensamentos não passaram. Tornaram-se mais frequentes, aparecendo durante reuniões, aos domingos ao fim da tarde, quando olhava para o calendário de trabalho.

Numa sessão, a psicóloga perguntou: “O que é que tinha nessa altura que já não tem agora?” A resposta caiu como uma pedra: conversa verdadeira, sem filtros. Espaço para ser imperfeita. Menos pressão para “estar bem”. A mente dela não estava, especificamente, a pedir aquela amiga. Estava a implorar por aquela sensação.

Do ponto de vista psicológico, pensamentos recorrentes sobre alguém são muitas vezes um sinal de um “processo emocional inacabado”. Isso pode significar conflito por resolver, gratidão não expressa, falta de encerramento, ou simplesmente uma parte da sua identidade que estava viva com aquela pessoa e que, entretanto, ficou silenciosa. O cérebro adora padrões e, quando a sua vida atual não corresponde a um padrão anterior que parecia mais seguro ou mais autêntico, puxa essas caras antigas como marcadores.

Às vezes, a mente escolhe uma pessoa como símbolo porque ainda não tem palavras para aquilo que está em falta. É por isso que afastar esses pensamentos não resulta por muito tempo. Não está apenas a ignorar memórias. Está a ignorar uma mensagem.

Como decifrar o que a sua mente está realmente a tentar dizer

Um método simples que os psicólogos recomendam é um breve exercício de “rastreio do pensamento”. Da próxima vez que essa pessoa lhe vier à cabeça, não empurre a ideia para longe. Pare. Repare exatamente no que estava a fazer e a sentir nos minutos anteriores ao aparecimento do pensamento. Estava aborrecido? Sozinho? Ansioso com o trabalho? A sentir-se invisível para o seu parceiro? Anote três coisas: a situação, a emoção e a memória que surgiu.

Faça isto durante uma semana. No final, normalmente surgem padrões. Pode perceber que só pensa no/a ex quando se sente rejeitado profissionalmente, porque essa pessoa, em tempos, o fazia sentir-se profundamente escolhido. Ou que se lembra de um antigo professor quando duvida de si, porque foi a primeira pessoa a acreditar no seu talento. O “quem” costuma ser menos importante do que o “porquê”.

Uma armadilha comum é romantizar o passado quando alguém aparece repetidamente nos nossos pensamentos. Começamos a apagar as partes más e a guardar apenas as quentes. De repente, o/a ex tóxico/a parece profundo/a e incompreendido/a. O pai controlador passa a ser “exigente, mas amoroso”. Esquecemos o quadro completo e transformamos a memória num best of. É aqui que muita gente fica presa, a achar que estes pensamentos recorrentes significam que devem voltar, reconectar, recomeçar a história antiga.

Um “check-in” honesto ajuda. Pergunte: se eu pudesse magicamente ter essa pessoa de volta exatamente como era, a minha vida funcionaria mesmo melhor agora? Muitas vezes, a resposta real é não. O que a sua mente quer de volta é uma necessidade que, em tempos, era satisfeita na presença dessa pessoa: segurança, atenção, espontaneidade, aventura, ser verdadeiramente visto. O erro é confundir o mensageiro com a mensagem.

“Pensamentos persistentes sobre alguém do passado raramente são aleatórios”, explica a psicóloga clínica Dr.ª Léa Martin. “São mais como uma notificação do seu eu mais profundo: ‘Ei, costumava sentir-se de uma certa forma quando esta pessoa fazia parte da sua vida. Agora não se sente assim. O que mudou?’ O objetivo não é necessariamente voltar para essa pessoa. É perceber o que a sua psique está a pedir hoje.”

  • Passo 1: Nomeie a emoção. Quando essa pessoa lhe vier à cabeça, identifique o sentimento dominante: saudade, raiva, vergonha, conforto, entusiasmo, alívio.
  • Passo 2: Nomeie a versão de si. Quem era quando estava com ela? Mais criativo, mais audaz, mais cuidado, mais infantil, mais livre?
  • Passo 3: Traduza isso numa necessidade atual. Precisa mesmo de contacto com essa pessoa, ou precisa de mais intimidade, coragem, descanso, brincadeira ou respeito na sua vida atual?
  • Passo 4: Decida uma pequena ação. Pode ser escrever uma carta que não vai enviar, juntar-se a um grupo, marcar uma conversa a sério com alguém em quem confia, ou mudar um pequeno hábito que o mantém preso.

Quando revisitar o passado ajuda a avançar

Quando começa a tratar estes pensamentos recorrentes como sinais - e não como irritações - a sua relação com eles muda. Já não pergunta “Porque é que não consigo parar de pensar nessa pessoa?”, mas sim “O que é que esta memória me está a tentar mostrar?” Essa pequena mudança abre uma porta. Leva-o da obsessão para a curiosidade. Da vergonha para a exploração.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que um amor antigo ou um amigo parece mais próximo na nossa cabeça do que as pessoas sentadas mesmo ao nosso lado. Pode parecer quase uma deslealdade à vida atual. Ainda assim, os psicólogos lembram que a mente usa frequentemente o passado como campo de treino para o futuro. Esses replays mentais são como rascunhos de decisões que ainda não tomou por completo. Limites novos que ainda não está pronto a impor. Um capítulo novo de vida que ainda não se atreveu a começar.

Algumas pessoas precisam de contactar, e isso pode ser saudável se for feito com consciência - não a partir de pânico ou de saudade vazia. Outras percebem que não precisam de contacto nenhum. Precisam de um ritual de encerramento: escrever a carta e queimá-la, dizer o adeus que nunca conseguiram dizer, mesmo que a outra pessoa nunca o ouça. Para alguns, a terapia torna-se o lugar mais seguro para desfazer o nó de por que é que uma desilusão amorosa da adolescência ainda vive “de renda” na cabeça aos 40.

Sejamos honestos: quase ninguém faz isto todos os dias. A maioria de nós continua a fazer scroll, meio desconfortável, meio distraída. Mas quem se atreve a ouvir - só por um momento - descobre muitas vezes que os pensamentos repetitivos têm menos a ver com “aquele/a que escapou” e mais com o eu que ficou enterrado. Debaixo das memórias, há geralmente um desejo silencioso e teimoso: viver uma vida que não pareça uma versão diluída de quem fomos um dia.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Pensamentos recorrentes são sinais Muitas vezes apontam para necessidades não satisfeitas, emoções por resolver ou uma parte perdida da sua identidade Ajuda a deixar de se sentir “maluco” e a começar a decifrar o que a sua mente lhe está a pedir
Use ferramentas simples de rastreio Repare quando o pensamento aparece, o que estava a fazer e como se estava a sentir Dá-lhe um método concreto para transformar uma nostalgia vaga em autoconhecimento claro
Nem sempre precisa de voltar atrás Pode honrar a mensagem sem reavivar a relação Protege-o de repetir padrões antigos, enquanto continua a crescer a partir do passado

FAQ:

  • Pergunta 1 Pensar muito em alguém significa que ainda estou apaixonado/a por essa pessoa?
  • Pergunta 2 Devo contactar a pessoa em quem continuo a pensar, ou isso é má ideia?
  • Pergunta 3 Porque é que penso mais em pessoas de há anos quando estou stressado/a?
  • Pergunta 4 É normal ficar obcecado/a por alguém que mal conheci?
  • Pergunta 5 Quando devo falar com um/a terapeuta sobre estes pensamentos recorrentes?

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