She puxa pela sua camisola preta oversized, alisa as calças bege que já usou três vezes esta semana e desvaloriza, a rir, perante a amiga: “Pelo menos aqui não dá para me ver.” A amiga, com uma camisa azul poeirado suave, encolhe os ombros e não diz nada. À volta delas, as pessoas florescem em cachecóis laranja queimado, casacos verde-floresta, um relâmpago de batom carmim na mesa ao lado. A sala é barulhenta, quase teatral. O conjunto dela parece um sussurro.
Os psicólogos dizem que esse sussurro não é aleatório. As cores a que recorremos quando ninguém está a olhar dizem muitas vezes mais sobre nós do que a própria roupa. Não de forma mística, mas no sentido de: “Quão seguro me sinto a existir nesta sala?”
E há três cores que voltam uma e outra vez nas histórias de pessoas que, em silêncio, sentem que não pertencem.
A linguagem silenciosa da cor e da autoestima
Pergunte a um terapeuta sobre cor e raramente receberá uma aula de moda. Recebe histórias. Histórias de clientes que chegam sempre nos mesmos tons apagados, que se descrevem como “demasiado” e, no entanto, vestem-se como se estivessem a tentar desaparecer. Repetidamente, surgem três tons: preto sem brilho, cinzento sem vida e bege deslavado. Não o preto enquanto escolha de estilo, nem o cinzento carvão chique de um fato. Estamos a falar de cor como camuflagem.
Estes tons tornam-se muitas vezes uma espécie de uniforme emocional. Uma forma de atravessar o mundo ocupando o mínimo de espaço visual possível. De se infiltrar em reuniões, salas de aula, jantares de família sem atrair olhares extra. Quando a autoestima é baixa, a visibilidade pode parecer perigosa.
Uma psicóloga de Londres conta a história de Tom, um designer gráfico de 32 anos que chegava à terapia todas as semanas com a mesma sweatshirt preta com capuz e umas calças de ganga cinzentas e baças. O guarda-roupa dele, explicava, era “de baixo risco”. Sem padrões, sem cor, nada que pudesse estar “errado”. Uma vez, tinha usado uma camisa verde-vivo numa festa e um colega brincou que ele parecia “um marcador fluorescente”. Anos depois, ainda se lembrava dessa frase palavra por palavra.
Num pequeno estudo partilhado por uma equipa clínica em Milão, as pessoas que classificaram a sua autoestima como “baixa” numa escala padrão tinham uma probabilidade significativamente maior de escolher imagens de conjuntos pretos e cinzentos para “uso diário” do que as pessoas do grupo de autoestima alta. Os participantes com autoestima alta escolhiam azuis, verdes e vermelhos mais saturados para as mesmas situações imaginadas.
Isto não é apenas uma preferência de moda. É uma estratégia de sobrevivência moldada por pequenas feridas sociais que nunca chegaram a sarar.
Os psicólogos são cautelosos: a cor não “causa” baixa autoestima, e vestir preto não diagnostica magicamente nada. O que eles observam é a relação emocional com essas cores. O preto, na sua forma lisa e sem estrutura, carrega muitas vezes uma regra não dita: “Se ninguém me vir, ninguém me pode rejeitar.” O cinzento pode tornar-se uma forma de esbater os contornos da sua personalidade. O bege, quando escolhido por medo e não por gosto, funciona como um pedido de desculpa visual por existir.
O nosso cérebro adora padrões. Se foi punido, gozado ou ignorado quando se destacou, o seu sistema nervoso aprende que misturar-se é mais seguro. Com o tempo, essa aprendizagem instala-se no guarda-roupa. Deixa de tentar novas tonalidades, novos cortes, novas texturas. Deixa de experimentar, ponto. As escolhas de cor tornam-se um espelho silencioso de quanto sente que tem permissão para ocupar espaço.
Aumentar o volume, uma tonalidade de cada vez
Terapeutas que trabalham a autoestima não dizem aos clientes para deitarem fora toda a roupa preta de um dia para o outro. Sugerem experiências pequenas e gentis. Um método prático a que alguns chamam “cor um degrau acima” é manter a base do conjunto onde se sente seguro - as calças pretas, a camisola cinzenta - e acrescentar um único elemento um pouco mais vivo: azul-marinho em vez de preto, camel quente em vez de bege apagado, um cachecol verde-floresta suave.
O objetivo não é tornar-se um arco-íris ambulante. É testar a crença de que “se eu for visto, vou ser atacado”. Entra no seu dia com uma cor ligeiramente mais ousada e limita-se a observar o que acontece. Na maioria das vezes, não acontece nada de mau. Às vezes até recebe um elogio. O seu cérebro regista esses novos dados. Devagar, o “manual” interno começa a reescrever-se.
Onde as pessoas muitas vezes ficam presas é na armadilha do tudo-ou-nada. Esperam pelo momento em que finalmente “se vão sentir confiantes o suficiente” para usar cor, como se a autoestima tivesse de chegar primeiro e o guarda-roupa viesse depois. A realidade é mais confusa. Às vezes, a roupa avança primeiro e a confiança apanha-a mais tarde. Ao nível humano, isso assusta. Arrisca sentir-se uma fraude no seu próprio conjunto.
Sejamos honestos: ninguém faz isto perfeitamente todos os dias. A maioria de nós escolhe a opção “segura” durante semanas e, de repente, compra uma camisa azul-cobalto que não tem a certeza de merecer. O truque é não se envergonhar por voltar ao preto no dia seguinte. Está a treinar um músculo. Esse músculo precisa de repetição, não de perfeição.
Um terapeuta resumiu assim a um cliente:
“Não se cura a baixa autoestima apenas na cabeça. Também se cura em frente ao guarda-roupa, cada vez que decide ser visto só um grau mais do que ontem.”
Para tornar isto menos abstrato, muitos psicólogos sugerem uma checklist simples para experiências com cor:
- Escolha uma cor de “conforto” e uma cor de “alongamento” para a semana.
- Use a cor de alongamento numa situação de baixo risco (ir buscar café, videochamada com um amigo).
- Repare nos seus pensamentos antes, durante e depois - sem os julgar.
- Anote quaisquer reações neutras ou positivas dos outros.
- Repita a mesma cor de alongamento várias vezes até parecer normal.
Mudanças minúsculas, quase invisíveis, como estas, muitas vezes importam mais do que uma transformação dramática.
O que estas três cores sussurram sobre a sua história
O preto, o cinzento e o bege “sem vida” estão por todo o lado. Em alguns guarda-roupas, são poderosos, escolhidos, adorados. Noutros, são um esconderijo. A mesma tonalidade pode sinalizar força numa pessoa e autoapagamento noutra. Por isso os psicólogos voltam sempre ao contexto. Escolhe o preto porque adora o drama que ele traz? Ou porque tem pânico de “errar” se escolher outra coisa?
Pode ser desconfortável fazer essa pergunta. Mas, quando começa a reparar, surgem padrões. A camisa que nunca usa porque “chama a atenção”. O batom que comprou e nunca abriu. O vestido que adora no provador, mas deixa no cabide porque “quem é que eu acho que sou?” Estes micro-momentos em torno da cor revelam muitas vezes mais sobre o valor próprio do que longos discursos sobre “confiança”.
Num nível mais profundo, as três “cores da baixa autoestima” funcionam como boletins meteorológicos emocionais. Muito preto pesado pode apontar para vergonha internalizada ou para a crença de que a suavidade não é permitida. O cinzento deslavado, interminável, ecoa frequentemente uma mentalidade entorpecida de “para quê”, em que a vivacidade parece quase imprópria. O bege perpétuo pode refletir um desejo silencioso de não incomodar ninguém - não demasiado alto, não demasiado brilhante, apenas… aceitável.
Num dia mau, todos escorregamos para esses estados. Numa longa sequência de meses ou anos maus, eles endurecem em identidade: “Sou o tipo de pessoa que se mistura com o fundo.” A partir daí, o guarda-roupa limita-se a cumprir ordens. Trocar uma cor não resolve feridas de infância nem locais de trabalho tóxicos. Ainda assim, pode ser um ponto de partida surpreendentemente concreto para começar a contar a si próprio uma história diferente sobre quem tem permissão para ser.
Ao nível social, esta conversa não é sobre culpar as pessoas pela roupa. É sobre notar como a cultura recompensa certas formas de invisibilidade. Muitas mulheres são elogiadas por serem “sem complicações”; muitos homens por não “se esforçarem demasiado”. Adolescentes são gozados quando experimentam de forma extravagante e depois recuam, em silêncio, para hoodies e calças de fato de treino. Aprendemos muito cedo quais as cores que são “demais” para o nosso género, o nosso tipo de corpo, o nosso trabalho.
Todos tivemos aquele momento em que entrámos numa sala e nos arrependemos instantaneamente de um conjunto que parecia “excessivo”. A vergonha arde com tanta força que o cérebro cola um post-it à experiência: nunca mais. Anos depois, a sua dependência do preto, do cinzento e do bege pode ter menos a ver com gosto e mais com aquela noite em que se sentiu ridículo sob a luz errada. É esse tipo de arqueologia íntima e minúscula que os psicólogos exploram com delicadeza com clientes que querem sentir-se mais livres na própria pele.
A autoestima não se constrói em páginas brilhantes de revista nem em transformações súbitas e dramáticas. Constrói-se em manhãs silenciosas, meio a dormir, quando olha para a roupa e faz uma pequena escolha corajosa para ser visto um pouco mais claramente. Acrescentar um cachecol verde-azulado suave ao seu casaco preto habitual. Escolher um bege mais profundo e rico, que de facto combine com o calor da sua pele, em vez de a apagar. Deixar o cinzento ficar no guarda-roupa, mas em tecidos melhores, cortes mais definidos, formas que dizem “estou aqui” em vez de “não olhem para mim”.
São pequenos atos de autorrespeito, repetidos ao longo do tempo. Não vão resolver tudo. Mas podem mudar a forma como ocupa salas, reuniões, ruas, comboios. E, talvez mais interessante, podem mudar a forma como os outros o experienciam - não como uma sombra na margem da fotografia, mas como uma pessoa com contornos, textura e uma história que vale a pena ouvir.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Três cores em “modo camuflagem” | O preto sem brilho, o cinzento baço e o bege deslavado surgem frequentemente em pessoas com baixa autoestima | Permite olhar para o guarda-roupa como um espelho emocional, sem julgamento |
| Micro-experiências de cor | Introduzir uma tonalidade mais viva ou mais profunda, em pequenas doses, em conjuntos “seguros” | Oferece um método concreto para testar novos comportamentos sem se sentir em perigo |
| Do estilo ao enredo interior | Observar não só o que se veste, mas porquê - e o que se diz a si próprio | Ajuda a abrir uma reflexão sobre o espaço que se permite ocupar na própria vida |
FAQ:
- Usar muito preto significa que tenho baixa autoestima? Não. O preto pode ser elegante, poderoso ou simplesmente prático. Os psicólogos encaram-no como um sinal de alerta apenas quando é usado de forma rígida para se esconder, evitar atenção ou por medo de “errar”.
- Há cores que “corrigem” a baixa autoestima? Nenhuma cor cura nada. Tons mais vivos ou mais ricos podem apoiar o trabalho de confiança, mas são ferramentas, não magia. A mudança real vem de terapia, limites, autocompaixão e novas experiências.
- E se eu gostar genuinamente de tons neutros? Então fazem parte do seu estilo autêntico. A pergunta-chave é: estas cores fazem-no sentir-se mais você, ou menos? Se os neutros parecem escolhidos e não impostos, não são um problema.
- Como posso começar a experimentar se me sinto muito autoconsciente? Comece em contextos de baixa pressão: em casa, com amigos próximos, ou em pequenas saídas. Use passos subtis: azuis mais profundos, verdes azeitona, neutros mais quentes. Repita até o seu sistema nervoso acalmar.
- Devo preocupar-me com um amigo que só usa preto e cinzento? Não necessariamente. O que importa é o humor, o que essa pessoa diz sobre si, e sinais de retraimento. Se estiver preocupado, abra uma conversa cuidadosa sobre como ela está de verdade, para lá da roupa.
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