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Pessoas que pedem desculpa por tudo normalmente estão a reagir a traumas, não a ser educadas.

Homem escreve "desculpa" num bloco de notas, com chá e lenços próximos numa mesa iluminada pelo sol.

“Desculpa.”
A palavra salta-lhe da boca antes de as portas do elevador estarem sequer totalmente abertas. Ela está só ligeiramente a atrapalhar, quase nada, mas encosta-se à parede como se tivesse cometido um crime. Mais tarde, junto à máquina de café, pede desculpa outra vez porque a máquina apita demasiado alto. Depois, novamente, porque o e-mail era “demasiado longo”. Às 10 da manhã, já disse “desculpa” uma dúzia de vezes - e nenhuma daquelas situações exigia realmente um pedido de desculpas.

Provavelmente já conheceu alguém assim. Talvez seja essa pessoa.

Há uma história escondida dentro dessa palavra tão pequena.

Quando “desculpa” não tem nada a ver com boas maneiras

Ouça com atenção no trabalho, no metro, nos chats de grupo.
Vai ouvi-la em todo o lado: “Desculpa, pergunta rápida”, “Desculpa, só a dar seguimento”, “Desculpa, isto pode ser uma pergunta parva mas…”. Não são pessoas a entornar copos em restaurantes ou a pisar pés em bares cheios. Estão apenas a existir, a perguntar, a hesitar, a respirar.

O pedido de desculpa vem antes de qualquer ofensa.
É como um sobressalto verbal.

Imagine a Lena, 29 anos, numa reunião.
É a única que preparou slides, a única com dados reais, e mesmo assim começa a apresentação com: “Desculpa, isto pode não ser relevante, mas…”. O gestor interrompe-a, diz que o trabalho dela é, na verdade, central para o projeto, e toda a gente acena. Ela sorri, sem jeito, com as faces a arder.

Mais tarde, vai pedir desculpa outra vez no Slack.
“Desculpa por ter tomado tanto tempo há bocado.”
Ela falou 7 minutos.

Este pedir desculpa constante muitas vezes tem muito pouco a ver com educação.
Está mais perto de um alarme de incêndio com a sensibilidade no máximo, a reagir ao menor sinal de possível conflito. Muitas pessoas que cresceram em ambientes caóticos, críticos ou inseguros aprenderam que a melhor forma de sobreviver era manterem-se pequenas e agradáveis.

Pedir desculpa por existir torna-se um escudo preventivo.
Sussurra: “Não fiques zangado, eu desapareço se for preciso.”
Isto não é etiqueta. É um sistema nervoso em modo de vigilância.

Ler o “desculpa” como um eco de trauma, não como um defeito de caráter

Uma mudança simples pode alterar tudo: em vez de ouvir “desculpa” e pensar “que pessoa carente”, tente ler como “estou a procurar perigo”.
Para muitos adultos, sobretudo os que têm um historial de negligência emocional, bullying ou pais imprevisíveis, pedir desculpa é um reflexo - não uma decisão.

Aprenderam cedo que falar alto demais, pedir ajuda ou ocupar espaço podia provocar zanga.
Então embrulharam cada necessidade em plástico-bolha.
E colaram-lhe a etiqueta “desculpa”.

Muita gente descobre este padrão em terapia das formas mais banais.
Contam uma situação do trabalho em que pediram desculpa três vezes num único e-mail, e o terapeuta pergunta simplesmente: “O que é que fez de errado aí?” Há uma pausa longa. A pessoa pega no telemóvel para reler o e-mail.

Percebe: nada.
Sem insulto, sem atraso, sem erro. Apenas uma opinião, um pedido, uma interação humana normal.
O “desculpa” não era sobre a situação. Era sobre um medo antigo a acordar.

Os psicólogos às vezes chamam a isto resposta de apaziguamento (fawn response), uma prima do lutar, fugir ou congelar.
Em vez de fugir ou desligar, a pessoa tenta manter-se segura agradando a toda a gente, alisando cada ruga, preenchendo o silêncio com pedidos de desculpa. Se gostarem de mim, não me vão magoar.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias só porque está “a ser educado”.
Normalmente há uma história por trás deste guião, mesmo que a pessoa ainda não a consiga nomear.
E quando se vê isso, quem pede desculpa em excesso deixa de parecer irritante e passa a parecer exausto.

Aprender a falar sem encolher

Há um exercício pequeno e concreto que, ao início, pode parecer estranho, mas funciona como uma revolução silenciosa.
Durante uma semana, sempre que der por si a escrever ou a dizer “desculpa” por algo menor, pare. Pergunte: “Eu fiz mesmo algo errado ou prejudicial?” Se a resposta for não, substitua.

“Desculpa a demora a responder” pode tornar-se “Obrigado pela paciência.”
“Desculpa, pergunta rápida” transforma-se em “Tenho uma pergunta rápida.”
A mesma informação. Uma postura diferente.

No início, pode sentir-se mal-educado.
Pode ouvir o crítico interno a sussurrar: “Quem é que tu pensas que és?” Isso, regra geral, não é a sua voz adulta. É um eco das pessoas que lhe ensinaram que as suas necessidades eram “demais” ou que as suas perguntas eram “irritantes”.

Tente falar consigo como falaria com um amigo assustado.
Não lhe diria que é egoísta por pedir esclarecimentos numa reunião.
Lembrá-lo-ia de que tem direito a existir em volume máximo.

Às vezes, a coisa mais curativa é simplesmente dar nome ao que se passa.

“Pedir desculpa em excesso não tem a ver com ser simpático”, diz uma terapeuta informada sobre trauma com quem falei. “É uma estratégia de sobrevivência de uma época em que o teu cérebro acreditava que qualquer pequeno deslize podia levar à rejeição, ao ridículo, ou pior.”

  • Repare nos seus gatilhos
    Anote os momentos em que mais pede desculpa: e-mails, reuniões, mensagens ao parceiro, entrar em salas. Os padrões contam uma história.
  • Troque “desculpa” por gratidão
    Experimente “Obrigado por esperares” em vez de “Desculpa ser tão lento”. A gratidão mantém a ligação sem o encolher.
  • Pratique frases neutras
    “Discordo.” “Preciso de mais tempo.” “Ainda não percebo.” Estas frases parecem bruscas ao início. Na verdade, são apenas claras.
  • Defina desafios pequenos
    Escolha um contexto por dia em que não vai pedir desculpa por existir: entrar numa videochamada, fazer uma pergunta, passar por alguém.
  • Seja curioso, não cruel
    Quando pedir desculpa em excesso, não se castigue. Pergunte com gentileza: “De quem é que eu tenho medo agora? Do passado ou do presente?”

Do “desculpa” crónico à presença honesta

Imagine como é diferente um dia em que “desculpa” fica reservado para danos reais - e não para respirar demasiado alto num espaço partilhado.
Diz “Discordo” numa reunião e fica sentado na cadeira, com o coração a disparar, mas o corpo firme. Envia “Hoje não consigo, estou demasiado cansado” sem o cobrir com cinco pedidos de desculpa e uma desculpa inventada.

Não se torna menos gentil.
Torna-se menos assustado.

Para algumas pessoas, esta mudança vem acompanhada de luto.
Começa a ver quão novo era quando começou a pedir desculpa por existir. Recorda professores que reviravam os olhos, pais que respondiam de forma brusca, parceiros que transformavam o silêncio numa arma. Repara nos lugares onde ainda escolhe paz em vez de verdade, conforto em vez de autenticidade.

Essa tristeza faz parte do processo.
Significa que, finalmente, está a levar as suas necessidades a sério.
Nem todos os “desculpa” merecem sobreviver à auditoria.

Se alguma coisa disto lhe soa desconfortavelmente familiar, não está estragado nem a dramatizar. É alguém cujo sistema nervoso trabalhou incrivelmente durante anos para o manter seguro - muitas vezes de formas que mais ninguém viu. Pode agradecer-lhe o trabalho que fez e, ainda assim, decidir escrever um novo guião.

Tem o direito de ocupar espaço sem um aviso prévio.
Tem o direito de pedir o que precisa sem pedir desculpa primeiro.
E tem o direito de guardar o seu “desculpa” para os momentos que realmente importam - onde a reparação é real e a ligação aprofunda, em vez de encolher.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Pedir desculpa em excesso pode ser uma resposta ao trauma Muitas vezes enraizado em crítica, imprevisibilidade ou negligência emocional Reduz a auto-culpa e reenquadra o comportamento com compaixão
Trocas de linguagem mudam a postura Substituir “desculpa” por gratidão ou frases neutras Constrói confiança sem se tornar agressivo ou frio
A consciência é a primeira intervenção Reparar quando, onde e com quem pede desculpa em excesso Ajuda a identificar gatilhos e a escolher novas respostas, devagar

FAQ:

  • Pergunta 1 Como sei se estou a pedir desculpa em excesso ou apenas a ser educado?
  • Pergunta 2 Pedir desculpa em excesso pode mesmo vir de trauma de infância?
  • Pergunta 3 O que posso dizer em vez de “desculpa” em situações do dia a dia?
  • Pergunta 4 É possível mudar este hábito em adulto?
  • Pergunta 5 Devo falar sobre isto com amigos ou com um terapeuta?

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