O cheiro da sala é a bolos de baunilha, apesar de ninguém fazer bolos há meses. Uma vela tremeluz sobre a mesa de centro, e a luz suave reflete-se no ecrã da TV. O cão salta para cima, curioso, o nariz a farejar, os olhos semicerrados contra a chama. A gata dá uma volta, depois outra, cauda baixa, orelhas ligeiramente para trás, como se não tivesse a certeza sobre este novo ritual “acolhedor” de que os humanos tanto gostam.
Percorre o telemóvel, descontraído, um olho na série, outro na chama a dançar.
Depois o cão tosse. Só uma vez. Depois outra, um pouco mais forte desta vez. A gata dispara e esconde-se debaixo da cama.
Apaga a vela com um sopro, afasta o fumo com a mão e abre a janela.
Por um segundo, a sala parece muito menos inofensiva.
Porque é que aquela vela perfumada “inofensiva” pode pôr o corpo do seu animal sob stress
No Instagram, as velas perfumadas vivem num mundo perfeito de sofás bege e mantas de malha XXL. Na vida real, vivem em apartamentos pequenos, quartos fechados e cozinhas onde os animais passam a maior parte do dia a respirar o mesmo ar. Os focinhos deles estão precisamente à altura das mesas de centro, dos móveis da TV e dos peitoris das janelas onde alinhamos frascos de “pumpkin spice” e “fresh linen” como troféus.
A chama é apenas parte da história. O verdadeiro problema esconde-se na cera, na fragrância e nos fumos invisíveis que se espalham muito depois de a apagar.
Relatórios de toxicologia veterinária da última década têm-se acumulado em silêncio. Algumas clínicas já registam grupos de casos em que gatos desenvolvem sintomas semelhantes aos da asma, ou cães chegam com irritação ocular e tosse, logo após uma mudança nos hábitos de fragrância em casa. Um inquérito do Reino Unido, de 2021, junto de tutores de gatos, concluiu que casas que usavam vários produtos perfumados diariamente relatavam mais problemas respiratórios do que casas sem esses produtos.
Uma veterinária em Paris descreveu um caso que ainda a persegue. Um gato jovem, de interior, saudável, começou de repente a chiar ao respirar depois de a tutora “se apaixonar” por uma marca popular de velas de luxo e acender um aroma diferente todas as noites. Quando pararam, a respiração do gato melhorou. Não foi um milagre. Foi apenas ar mais limpo.
O que é que, afinal, está a flutuar nesse ar com cheiro a aconchego? Muitas velas convencionais usam parafina, um subproduto do petróleo, que pode libertar partículas minúsculas e químicos quando arde. A isto somam-se fragrâncias sintéticas e corantes, que podem emitir compostos orgânicos voláteis (COV), alguns deles irritantes para pulmões sensíveis. Os animais respiram isto mais perto da fonte, durante mais tempo e com corpos muito mais pequenos do que os nossos.
O fígado e os rins deles já estão ocupados a filtrar tudo o resto, desde a alimentação aos tratamentos contra pulgas. Somar fumos de fragrância pode desequilibrar a balança mais depressa do que imaginamos. A linha entre “ritual inofensivo” e “factor de stress lento e invisível” é mais fina do que o próprio pavio.
Como manter o seu animal em segurança sem abdicar de uma casa acolhedora
Comece por uma verificação do ar com prioridade no animal. Ou seja, faça uma pergunta simples antes de acender seja o que for: “Eu estaria bem se o meu nariz estivesse a 10 cm disto durante horas?”
Abra as janelas um pouco mais vezes, mesmo no inverno. Troque o hábito de queimar velas diariamente por sessões curtas e ocasionais em divisões bem ventiladas. Coloque as velas bem fora do alcance de farejar e de patas - prateleiras altas, lareiras/manteleiras ou divisões onde os animais raramente entram.
Depois, leia os rótulos. Velas simples, sem perfume, de cera de abelha ou de soja, com pavios de algodão e sem corantes, tendem a ser menos agressivas para o ar. Não vão inundar a casa com intensidade de “bolacha de Natal”, mas também não vão banhar os pulmões do seu cão num cocktail químico.
Uma armadilha comum é achar que “natural” no rótulo significa automaticamente seguro para animais. Muitos óleos essenciais são de origem vegetal e, mesmo assim, são arriscados para animais, sobretudo para gatos. Óleos de árvore-do-chá, eucalipto, citrinos, canela e hortelã-pimenta podem provocar desde baba e vómitos até sinais neurológicos.
Todos já vivemos aquele momento em que acendemos uma vela nova e pensamos: “Uau, cheira a spa.” O seu gato ou cão não tem voto na matéria; só inala. Se o seu animal sai da divisão, se esconde, tosse, semicerrar os olhos ou lambe os lábios em excesso quando a vela está acesa, isso é feedback. Silencioso, mas claro. Sejamos honestos: ninguém lê todas as listas de ingredientes todos os dias, mas reparar no comportamento do seu animal é um início que, de facto, dá para manter.
A veterinária Dra. Lisa Radcliffe, que se foca na saúde ambiental dos animais, disse-me numa entrevista: “O que mais me preocupa não é uma vela num domingo à noite. É a neblina de fundo - difusores, sprays, ceras perfumadas, detergentes com fragrância e velas, tudo a funcionar ao mesmo tempo no mesmo espaço pequeno onde um gato dorme 16 horas por dia.”
Para reduzir essa “neblina de fundo”, muitos especialistas recomendam trocar velas e fragrância constante por rituais de menor impacto:
- Velas de cera de abelha ou soja, sem fragrância, usadas ocasionalmente, com ventilação e longe dos animais
- “Potpourri” ao lume (panelinha a ferver) com água, cascas de maçã e uma pitada de ervas seguras para animais, em vez de ceras perfumadas
- Purificadores de ar com filtro HEPA nas divisões onde os animais passam mais tempo
- Uso curto e supervisionado de sprays de ambiente muito suaves e seguros para animais, validados pelo seu veterinário
- Apostar mais em ar fresco, têxteis limpos e aspiração regular em vez de mascarar odores
Estas trocas não são tão “instagramáveis”, mas reduzem discretamente a carga invisível nos pulmões do seu animal - e nos seus também.
As pequenas escolhas que mudam a forma como a sua casa “cheira” para os seus animais
Quando começa a ver a casa ao nível do nariz do seu animal, a imagem muda por completo. O caixote do lixo da cozinha, o cesto da roupa, os sapatos junto à porta, os cantos empoeirados atrás do sofá - esse é o verdadeiro mapa de cheiros do seu espaço. As velas são apenas o perfume que borrifa por cima.
Quando os tutores deixam cair a ideia de que cada divisão tem de cheirar a um aroma com nome - “Floresta Nórdica”, “Manta de Caxemira”, “Bolo de Aniversário” - acontece algo inesperado. Relaxam. Os animais relaxam. O ar parece um pouco mais honesto, um pouco menos “editado”. Algumas pessoas até relatam menos dores de cabeça e menos sensação de “nariz entupido” durante a tarde.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Riscos escondidos das velas perfumadas | A parafina, as fragrâncias sintéticas e os corantes libertam irritantes e COV em espaços fechados, especialmente à altura do nariz dos animais | Ajuda a perceber porque é que o seu animal pode tossir, semicerrar os olhos ou evitar certas divisões |
| Hábitos de queima mais seguros | Uso ocasional, boa ventilação, colocação elevada e ceras mais simples como cera de abelha ou soja com pavios de algodão | Permite manter algum ambiente reduzindo riscos para a saúde de animais e humanos |
| Alternativas para lá da fragrância | Purificadores de ar, limpeza regular, sprays suaves seguros para animais e aceitar um cheiro mais neutro em casa | Oferece formas práticas de criar conforto sem sobrecarregar os sentidos do seu animal |
FAQ:
Todas as velas perfumadas fazem mal aos animais?
Não necessariamente, mas muitas velas perfumadas comuns usam parafina e fragrâncias sintéticas que podem irritar pulmões e olhos sensíveis, sobretudo em divisões pequenas ou mal ventiladas. Velas de cera de abelha ou soja, menos processadas, sem perfume ou com perfume muito ligeiro, tendem a ser mais suaves - especialmente quando usadas raramente e longe dos animais.Que ingredientes devo evitar em velas se tenho gatos ou cães?
Evite parafina, fragrâncias sintéticas intensas, pavios com núcleo metálico, corantes fortes e velas carregadas de óleos essenciais como árvore-do-chá, eucalipto, citrinos, cravinho, canela ou hortelã-pimenta. Estes podem ser particularmente problemáticos para gatos, cujo fígado processa toxinas de forma diferente da nossa.Velas com óleos essenciais são mais seguras do que as normais?
Não por defeito. “Natural” não significa seguro para animais. Alguns óleos essenciais são ligeiramente irritantes; outros podem ser tóxicos com exposições surpreendentemente baixas, sobretudo em divisões fechadas. Se os usar, escolha fórmulas muito suaves, queime por pouco tempo, ventile bem e observe o seu animal para detetar mudanças de comportamento.Quais são boas alternativas às velas perfumadas para uma casa com cheiro agradável?
Limpeza regular, lavar frequentemente as camas dos animais, usar bicarbonato de sódio para odores, abrir as janelas todos os dias e usar um purificador de ar ajudam. Para um aroma subtil, experimente uma panelinha a ferver com água e cascas de maçã ou pera, ou um spray seguro para animais aprovado pelo seu veterinário. Estas opções refrescam o espaço sem carga química constante.Que sinais me devem levar a parar de usar uma vela perto do meu animal?
Se o seu animal começar a tossir, espirrar, chiar ao respirar, babar-se, semicerrar os olhos, esfregar a cara com as patas, vomitar ou esconder-se quando a vela está acesa, apague-a e ventile a divisão. Sintomas persistentes ou graves justificam uma chamada ou visita ao veterinário, sobretudo se o seu animal já tiver asma, alergias ou doença cardíaca.
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