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Nivea: “Sou dermatologista, estudei a fórmula do creme azul e aqui está a minha opinião sincera.”

Mulher de avental branco trabalha numa bancada com microscópio e tubos de ensaio, aplicando creme numa amostra.

Ela estava no final dos 60 anos, com um lenço elegante, mãos cansadas e aquele tipo de pele seca que dói mais do que aparenta. “Doutor, isto é tudo o que eu uso. A minha mãe usava. Seja honesto… isto é mau?” perguntou ela, com os dedos pousados no Nivea Creme como se fosse uma relíquia de família.

Eu já tinha visto aquela mesma lata em casas de banho de estudantes, nos bastidores de desfiles de moda, na mesa de cabeceira da minha avó. Rostos diferentes, o mesmo círculo azul. Há quem o trate como ouro da cosmética; outros sussurram que é basicamente petrolato perfumado com uma embalagem gira.

Alguns dias depois, sentei-me com a fórmula completa, ingrediente por ingrediente, não como neto nostálgico, mas como dermatologista que lê rótulos por profissão. O que encontrei foi menos romântico, mais matizado… e um pouco surpreendente.

O creme azul da Nivea ao microscópio: o que tem realmente lá dentro

No papel, o Nivea Creme é simples, quase à moda antiga. Uma emulsão espessa água-em-óleo construída à volta de óleo mineral, petrolato, glicerina e algumas ceras e álcoois gordos. Sem ativos “da moda”, sem péptidos, sem uma história de 15 passos.

Quando analiso a lista INCI como dermatologista, vejo um hidratante oclusivo de manual. Do tipo que aprendemos no primeiro ano de formação em Dermatologia: criar uma barreira, reter água, suavizar as camadas superiores da pele. Nada glamoroso, bastante eficaz em pele muito seca, e completamente indiferente ao Instagram.

Depois, há os elementos que fazem os consumidores modernos hesitar: perfume, conservantes como a metilisotiazolinona em algumas versões, álcool de lanolina. São sinais de alerta legítimos para uma minoria de pessoas com pele reativa ou com tendência para alergias. Para toda a gente restante, a questão é mais de preferência e conforto do que de perigo.

Lembro-me de um turno da noite no hospital, há anos. O aquecimento estava no máximo, o ar parecia lixa, e as enfermeiras partilhavam discretamente uma lata de Nivea na sala de descanso. Não estavam a “fazer skincare”; estavam só a tentar não gretar.

Uma enfermeira com mãos propensas a eczema disse-me que não aguentava loções sofisticadas e perfumadas, mas a Nivea - uma camada fina por cima do creme de prescrição - evitava que as mãos abrissem fissuras. Outra enfermeira, com bochechas propensas a acne, disse que lhe provocou borbulhas na única vez em que a experimentou no rosto. O mesmo produto, duas experiências completamente diferentes.

Há também o fator geracional. Muitos dos meus doentes mais velhos sentem-se genuinamente confortados pelo cheiro porque o associam aos cuidados da infância. Esse conforto emocional conta. Ao mesmo tempo, doentes mais jovens entram muitas vezes a dizer: “Ouvi dizer que isto entope os poros e envelhece a pele, é verdade?” Viram TikToks, não listas de ingredientes. Ambos os grupos estão a reagir a algo real, só que nem sempre à mesma coisa.

Se retirarmos a nostalgia e o pânico, o Nivea Creme é basicamente um hidratante pesado e oclusivo com uma fórmula relativamente “low-tech”. Não rejuvenesce a pele, não atenua hiperpigmentação e não substitui o protetor solar. O que faz, sobretudo, é reduzir a perda de água transepidérmica ao formar um filme semioclusivo à superfície.

Para pele seca e íntegra, isso é muitas vezes suficiente para suavizar visivelmente zonas ásperas e acalmar a sensação de repuxamento. Para rostos mais oleosos ou com tendência acneica, esse mesmo filme pode parecer sufocante e, em alguns casos, contribuir para congestão, sobretudo se a maquilhagem e o SPF não forem bem removidos antes.

A polémica costuma surgir por se pedir a este creme que faça trabalhos para os quais nunca foi concebido. Não é um milagre anti-idade. Também não é lodo tóxico numa lata. Está algures no meio: um hidratante denso e funcional, com prós e contras que dependem totalmente de quem o usa, onde e como.

Como um dermatologista usa realmente o creme azul na vida real

Quando recomendo o Nivea Creme, faço-o de forma muito seletiva. A minha lista mental começa pelo tipo de pele e pelo clima. Canela seca no inverno? Calcanhares gretados? Cotovelos descamativos? Esse é o habitat natural do creme.

Sugiro aplicá-lo na pele ligeiramente húmida, numa camada fina, e focar no corpo, não na zona T. Para o rosto, reservo-o para pele muito seca, sem tendência acneica, e normalmente só à noite, como uma máscara reparadora duas a três vezes por semana. Uma quantidade do tamanho de uma ervilha aquecida entre os dedos e pressionada (em vez de esfregada) comporta-se de forma muito diferente da máscara branca e espessa que muita gente espalha.

Um dos meus usos “do mundo real” favoritos é como camada protetora para as mãos. Muitas pessoas que lavam loiça, limpam ou trabalham em saúde usam sabonetes agressivos o dia todo. Digo-lhes para usarem um creme reparador sem perfume como base e, por cima, um sopro de Nivea como escudo. Não é sofisticado, simplesmente funciona.

A um nível humano, vejo o mesmo padrão vezes sem conta. Alguém chega com um saco cheio de séruns caros e, mesmo assim, pele seca… e uma confissão pequena, meio envergonhada, de que mantém uma lata azul na mesa de cabeceira “porque ajuda mesmo”. Num bom dia, o meu trabalho é tornar essa confissão desnecessária.

Erro comum número um: usar o Nivea Creme como creme de rosto diário, em toda a face, em pele oleosa ou mista. É aí que as queixas de “poros entupidos” normalmente começam. Erro comum número dois: besuntar sem limpar bem à noite. Isso quase garante congestão em algumas pessoas.

Sejamos honestos: ninguém faz realmente isto todos os dias - a limpeza meticulosa, a ordem certa das camadas, a espera entre cada produto. A vida mete-se pelo caminho. Por isso prefiro rotinas simples em que um creme pesado como este é usado como ferramenta direcionada, não como solução universal.

Quando alguém gosta claramente do produto, raramente digo: “Deite isso fora.” Digo: “Vamos mudar o sítio.” Talvez passe do rosto para os pés. Talvez se torne um creme de inverno, ou de viagens de avião, ou um SOS depois de retinóides. Há uma grande diferença entre proibir um produto e redefinir o seu papel para que a pele e o cérebro se sintam mais seguros.

Há uma frase que repito muito no consultório:

“Nenhum creme é bom ou mau em termos absolutos. Só existe ‘bom para a tua pele, o teu clima, os teus hábitos’ - ou não.”

Isto é muito verdade no caso da lata azul da Nivea.

Para quem gosta de orientações concretas, eis como costumo resumir em consulta:

  • Excelente combinação: pele do corpo muito seca, clima frio, lavagem frequente das mãos, pés e cotovelos, irritação pós-depilação nas pernas.
  • Usar com cautela: rosácea, pele muito sensível ou com tendência para alergias, rosto com tendência acneica, ambientes quentes e húmidos.
  • Melhores estratégias: aplicar na pele húmida, camadas finas, sobretudo à noite, e manter o produto de limpeza suave e consistente.

Quem deve manter a lata azul… e quem deve evitá-la

Quando os doentes perguntam “Devo parar de usar?”, raramente respondo com um sim ou não. Começo por perguntar onde usam, com que frequência e o que mais têm na prateleira da casa de banho. O contexto importa mais do que o nome da marca.

Se alguém tem mãos propensas a eczema, não tem alergias a perfume e passa por invernos rigorosos, o Nivea Creme pode ser um pequeno alívio diário. Por outro lado, se um adolescente com acne inflamada está a cobrir o rosto com ele todas as noites, a minha resposta muda para um “não no rosto, não agora”, gentil mas firme.

Todos já tivemos aquele momento em que um produto barato e “antigo” funcionou melhor do que um sofisticado, e isso quase dá vergonha. A cultura de skincare pode ser snobe - ou idolatra o luxo ou demoniza tudo o que parece do passado. A lata azul fica desconfortavelmente entre a nostalgia e a desconfiança, o que provavelmente explica porque é tão perguntada.

É aqui que eu fico, depois de anos a ler a fórmula e a ver pele real reagir a ela: para a pessoa certa, o Nivea Creme é um hidratante oclusivo perfeitamente aceitável, até reconfortante. Para a pessoa errada, é pesado, perfumado e não vale o risco de irritação ou surtos de borbulhas.

O que me fascina não é o produto em si, mas aquilo que ele revela: a tensão entre marketing e realidade. Entre o que a nossa avó usava e o que o TikTok nos diz que é “tóxico”. Entre a fantasia de um creme milagroso e a verdade ligeiramente aborrecida: hidratação, suporte da barreira cutânea, protetor solar, paciência.

Quando um doente tira agora aquela lata azul do saco, eu não torço o nariz nem a idealizo. Faço algumas perguntas, desenhamos onde pode ficar e onde deve reformar-se discretamente. E, às vezes, o compromisso é este: manter o creme, mudar a forma de o usar e deixar que a pele - e não a internet - dê o veredito.

Ponto-chave Detalhes Porque importa para os leitores
Melhores zonas para o Nivea Creme Funciona bem em áreas do corpo muito secas: mãos, pés, cotovelos, canelas e pernas pós-depilação. Menos adequado para zonas T oleosas ou rostos com tendência acneica. Usá-lo nos sítios certos dá suavidade e conforto sem desencadear borbulhas nem deixar sensação oleosa o dia todo.
Quanto usar e com que frequência Uma quantidade do tamanho de uma ervilha é suficiente para o rosto; uma ponta do dedo por zona no corpo; aplicar sobretudo à noite e não necessariamente todos os dias. Saber quantidades realistas ajuda a evitar a sensação sufocante e pegajosa e reduz o risco de poros obstruídos.
Quem deve ter cautela Pessoas com alergias conhecidas a perfume, pele muito sensível, acne ativa ou rosácea devem testar numa pequena área primeiro ou escolher uma alternativa sem perfume. Reconhecer se está num grupo de maior risco previne crises, dinheiro desperdiçado e a frustração de culpar o produto errado.

FAQ

  • O Nivea Creme é seguro para usar no rosto todos os dias? Para pele muito seca e sem tendência acneica, uma camada fina à noite pode resultar, especialmente nas estações frias. Para pele mista ou oleosa, o uso diário em todo o rosto costuma ser demasiado pesado e pode contribuir para congestão.
  • O creme azul entope os poros? A fórmula é bastante oclusiva, o que pode parecer “entupir poros” em alguns tipos de pele, sobretudo se a maquilhagem e o protetor solar não forem removidos a fundo. Em pele seca e não oleosa, tende a ser menos problemático e pode até ajudar a acalmar o repuxamento.
  • Posso usar Nivea Creme à volta dos olhos? Geralmente prefiro produtos mais leves e sem perfume perto dos olhos, porque esta zona é fina e reativa. Se ainda assim quiser experimentar, use uma quantidade mínima, dê pequenas batidas no osso orbital e pare de imediato se notar ardor ou vermelhidão.
  • O Nivea Creme é bom para as rugas? Não trata rugas no sentido de estimular colagénio ou reverter danos solares. O que pode fazer é “encher” a superfície com hidratação, fazendo com que linhas finas pareçam mais suaves por algumas horas.
  • Posso combiná-lo com retinol ou ácidos? Sim, muita gente usa uma camada fina de Nivea como “buffer” após ativos mais fortes, como retinoides, para reduzir a secura. A chave é introduzir uma alteração de cada vez, para perceber se a irritação vem do ativo ou do creme.

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