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Este simples hábito de usar um bloco de notas ajuda a reduzir a sobrecarga mental.

Pessoa a escrever numa agenda sobre uma mesa de madeira com post-its, caneta e chávena ao lado.

30h00, a mesa da cozinha da Emma parece um navegador com 37 separadores abertos. O portátil a apitar. O telemóvel a vibrar. Uma lista de compras a meio por baixo do cotovelo. Um impresso da visita de estudo escondido debaixo da torradeira. O cérebro dela já está estoirado e ela ainda nem começou a trabalhar a sério.

Às 11h17, lembra-se de repente do email a que “tem de responder hoje”. Às 11h19, já desapareceu outra vez. Substituído pelo pensamento do aniversário da mãe, a fatura do IMI, a consulta do dentista que anda sempre a adiar marcar.

Nessa noite, exausta, faz uma coisa pequena. Pega num caderno velho de uma gaveta, senta-se no sofá e simplesmente… escreve tudo o que lhe está a zumbir na cabeça. Três páginas depois, sente os ombros a descerem. Nada à volta mudou. E, no entanto, sente-se estranhamente mais leve.

Na manhã seguinte, apercebe-se de que se esqueceu de se sentir esmagada.

O caos silencioso que vive na tua cabeça

A maioria das pessoas anda por aí a carregar uma lista de tarefas invisível dentro do crânio. Pequenos post-its mentais colados por todo o lado: ligar ao centro de saúde, acabar o pitch deck, enviar aquela mensagem constrangedora, comprar sacos do lixo. A lista nunca acaba. Apenas dá voltas, como ruído de fundo que não consegues desligar.

O estranho é que metade destas tarefas demora menos de cinco minutos. O que realmente te drena não é fazer - é lembrar. O teu cérebro continua a espetar-te os mesmos lembretes, uma e outra vez, no pior momento possível. No duche. No comboio. Mesmo quando estás quase a adormecer.

A sobrecarga mental raramente é dramática. É aquele zumbido de baixa intensidade que te faz fazer scroll em vez de ler, ficar a olhar para a caixa de entrada, esquecer a palavra “micro-ondas”. Parece falha tua, quando na verdade é um problema de sistema.

Numa terça-feira à noite em Manchester, vi uma gestora de projetos na casa dos trinta abrir um caderno A5 novinho em folha num café. Sem app. Sem agenda especial. Apenas papel pautado barato. Desenhou três colunas toscas, suspirou e começou a despejar a semana da cabeça.

Em cinco minutos, a mesa estava coberta de pequenas listas ligeiramente caóticas. “Casa”, “Trabalho”, “Coisas que me estão a stressar”. Não estava tudo direitinho. Havia coisas riscadas, circuladas, reescritas. De vez em quando, ela parava, a olhar para o vazio enquanto surgia mais uma preocupação, e depois “aprisionava-a” rapidamente na página.

Quando finalmente fechou o caderno, parecia estranhamente energizada. “Eu não fiz nada de facto”, riu-se. “Mas já não sinto que me estou a afogar.” As tarefas eram as mesmas de antes. A relação dela com elas é que não.

Gostamos de acreditar que conseguimos fazer malabarismo com tudo na cabeça. A neurociência discorda, silenciosamente. A memória de trabalho só consegue manter um punhado de itens de cada vez; a partir daí, o cérebro começa a deixar cair bolas. Quando essas bolas são burocracias da vida, prazos e preocupações emocionais, o custo é stress, irritabilidade, mau sono.

Os psicólogos chamam por vezes “descarregamento cognitivo” ao ato de tirar informação do cérebro e colocá-la num sistema externo. Esse sistema pode ser uma app, um calendário, ou o verso de um envelope. Um caderno simples, porém, faz algo especial: abranda-te o suficiente para pensares.

Cada vez que escreves uma tarefa à mão, obrigas a mente a clarificá-la. Isto é mesmo urgente? É sequer responsabilidade minha? É para hoje, ou para o próximo mês? É nessa pausa minúscula que a sobrecarga mental começa a desfazer-se.

O hábito do caderno que acalma o ruído

O hábito é quase embaraçosamente simples: uma vez por dia, sentas-te com um caderno e fazes um “despejo mental” de tudo o que está a encher-te a cabeça. Não é um bullet journal bonito. Não é uma lista perfeitamente curada. É apenas um descarregamento bruto.

Põe um temporizador de 10 minutos. Escreve todas as tarefas inacabadas, preocupações, lembretes, ideias e planos mal cozidos. Ainda não organizes nada. Não julgues. Deixa a confusão cair na página. Compras, faturas, aquela conversa que estás a evitar, a fissura no teto da casa de banho. Tudo.

Quando o temporizador terminar, traça uma linha por baixo. O que está na página passa a pertencer ao caderno. A tua cabeça já não é a arrecadação. Volta a ser um espaço para pensar.

A maioria das pessoas experimenta isto uma vez, sente-se mais leve, e depois nunca mais volta a fazê-lo. A vida fica barulhenta, o caderno desliza para debaixo de um monte de correio, e os separadores mentais voltam a subir aos 37. É humano. Os hábitos falham quando parecem apenas mais uma coisa para gerir.

O truque é tornar este despejo mental ridiculamente fácil de repetir. O mesmo caderno. A mesma caneta, se puderes. A mesma altura do dia, mais ou menos. Liga-o a algo que já fazes: depois do primeiro café, depois de deixares as crianças na escola, mesmo antes de fechares o portátil.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias a sério. Aponta para “a maioria dos dias desta semana” e já estás a fazer mais pelo teu cérebro do que com mais uma app de produtividade que vais abandonar em 48 horas.

“A tua mente é para ter ideias, não para as guardar.” – David Allen

Depois de despejares tudo, podes dar-lhe uma forma suave. Assinala os poucos itens que realmente importam hoje. Circula os que podes delegar. Põe um ponto de interrogação ao lado das tarefas que, na realidade, nem precisam de ser feitas. Mantém tudo simples e indulgente.

  • Começa pequeno – 5 minutos com um caderno “rasca” vale mais do que zero minutos com a agenda perfeita.
  • Mantém um único sítio de captura – usa o mesmo caderno para o teu cérebro confiar no sistema.
  • Sê honesto no papel – inclui sentimentos, não só tarefas; eles também te ocupam a mente.
  • Revê com suavidade – espreita uma vez por dia, não obsessivamente de hora a hora.
  • Deixa-o ser feio – palavras riscadas e setas desarrumadas significam que está a ser usado, não exibido.

O poder silencioso de ver tudo espalhado à tua frente

Quando vês a tua carga mental escrita a tinta, algo subtil muda. A sensação rodopiante de que “tudo é urgente” acalma. Afinal, metade desse “tudo” pode esperar até quinta-feira, ou faz-se em 90 segundos, ou nem sequer é da tua responsabilidade.

Aqui é onde o hábito do caderno vai além da produtividade e entra na sanidade. Ao separares o que tem de acontecer hoje do que pode ficar a descansar na página, estás a dizer ao teu sistema nervoso: não estamos atrasados, estamos no comando. A sobrecarga deixa de parecer uma falha pessoal e passa a parecer um problema de logística com o qual consegues trabalhar.

Num dia mau, só abrir o caderno e acrescentar uma única linha pode ser suficiente. É um pequeno ato de respeito pela tua capacidade.

Algumas pessoas mantêm este hábito privado, outras partilham partes dele. Casais a comparar listas para equilibrar tarefas domésticas. Gestores a mostrar à equipa que também escrevem “enviar email constrangedor” com letra a tremer. Há uma solidariedade silenciosa em admitir que ninguém está a deslizar pela vida só com memória.

Quando começas a falar disto, reparas em quantos amigos vivem com essa pressão constante e silenciosa de se lembrarem de tudo. O caderno não é uma cura milagrosa. É uma pequena rebelião prática contra a ideia de que o teu cérebro deve ser um arquivo sem fundo.

Se experimentares isto durante uma semana, presta atenção aos efeitos secundários que não parecem produtividade. Adormecer um pouco mais depressa. Perder menos a paciência com os teus filhos. Ter espaço real na cabeça para voltares a sonhar acordado no autocarro. Essa é a verdadeira métrica.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Externaliza a tua carga mental Usar um caderno simples para tirar tarefas e preocupações da cabeça Reduz o stress, liberta espaço mental para pensar com clareza
Um ritual curto e repetível Despejo mental diário de 5–10 minutos, sempre mais ou menos à mesma hora Cria sensação de controlo sem acrescentar um sistema organizacional complicado
Ver, depois escolher Releitura rápida para distinguir o urgente, o delegável ou o inútil Ajuda a priorizar sem culpa e a aliviar a carga invisível

FAQ:

  • Preciso mesmo de um caderno físico, ou posso usar uma app? Usa o que realmente vais manter. Ainda assim, muita gente acha caneta e papel mais calmos e menos distrativos do que um ecrã cheio de notificações.
  • E se a minha lista me fizer sentir ainda mais sobrecarregado? Isso acontece muitas vezes na primeira vez; mantém-te no processo, depois assinala apenas três coisas para hoje e deixa o resto ficar na página, não na tua cabeça.
  • Quanto tempo deve demorar um despejo mental? Cinco a dez minutos chegam; se ainda estás a escrever aos 30 minutos, provavelmente já estás a planear, não apenas a descarregar.
  • O que faço com tarefas a que nunca chego? Quando o mesmo item aparece vários dias, ou divides em um primeiro passo mais pequeno, ou decides conscientemente largá-lo.
  • Isto é o mesmo que fazer journaling? Não exatamente; o journaling explora os teus pensamentos, enquanto este hábito sobretudo estaciona-os num sítio seguro para a mente não ter de os carregar o dia inteiro.

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