Saltar para o conteúdo

Como perceber se a tua rotina de autocuidado se tornou apenas mais uma forma de te avaliares.

Mulher a escrever num caderno ao lado de chávena fumegante e prato de fruta numa mesa junto à janela.

Há um tracker de hábitos em tons pastel na parede, um tapete de ioga ainda estendido, uma chávena de chá de ervas meio bebida já fria. Por fora, o autocuidado dela parece impecável, quase inspirador. Por dentro, tem a mandíbula tão cerrada que nem dá conta de que está a ranger os dentes.

Percorre as próprias stories do Instagram: rotina de cuidados de pele, “manhã lenta”, matcha à luz natural. Cada vídeo está polido, cronometrado, com banda sonora. Nada disso mostra o momento em que chorou na casa de banho porque “só” escreveu no diário 15 minutos em vez de 30. A rotina que era suposto ampará-la é agora mais um padrão no qual pode falhar.

O autocuidado era suposto suavizar as arestas dos nossos dias. Algures pelo caminho, transformou-se noutra forma de medir o nosso valor. A parte mais assustadora é o quão normal isso parece.

Quando o autocuidado, em silêncio, se transforma numa avaliação de desempenho

Há uma mudança subtil que acontece quando a tua rotina de autocuidado deixa de parecer um conforto e começa a parecer um boletim de notas. Primeiro, notas isso em coisas pequenas. Sentes culpa por faltar ao ioga, não porque as costas doem, mas porque a tua sequência na app acabou de morrer. Não ficas relaxada depois do banho; ficas irritada por não teres tido tempo de fazer também uma máscara facial.

Em vez de perguntares “O que é que me faria bem agora?”, a tua mente salta para “O que é que eu devia estar a fazer?” e “O que é que uma pessoa disciplinada faria?” Essa palavra “devia” costuma ser o primeiro sinal de alerta. O autocuidado deixa de ser ouvir para dentro e passa a ser cumprir metas. De repente, o descanso tem KPIs.

Olha para a indústria do bem-estar em expansão e dá para perceber como chegámos aqui. Um inquérito nos EUA concluiu que quase 50% dos millennials acompanham pelo menos uma métrica relacionada com o seu bem-estar: passos, sono, alimentação, humor. Por si só, isso não é mau. Mas imagina viver num corpo que está constantemente a ser auditado. Uma caminhada já não é só uma caminhada; são 7.382 passos. Dormir já não é “acordei bem”; é uma pontuação em 100.

Uma mulher que entrevistei descreveu que acordava todas as manhãs já ansiosa por causa da app do sono. Se a pontuação fosse baixa, o dia inteiro parecia condenado. Outra falou de rever o dia à noite para ver se as suas escolhas estavam “alinhadas” com a versão de si própria que queria projetar online. O autocuidado metamorfoseou-se numa vigilância contínua de si mesma, com as redes sociais como uma espécie de marcador público.

Há uma lógica nisto tudo que vem diretamente da cultura de trabalho. Muitos de nós somos treinados a pensar em termos de produtividade desde o momento em que fazemos login: medir, otimizar, melhorar. Esse mindset entra pelas nossas noites e fins de semana sem pedir licença. Então começamos a “otimizar” o descanso, a empilhar rotinas como tarefas numa lista. Meditar torna-se algo a aperfeiçoar. Escrever no diário torna-se um truque de produtividade. Até a alegria é dobrada dentro de uma lógica de resultados: “Isto tornou-me melhor? Fez avançar a agulha?”

Por baixo, há muitas vezes um medo silencioso: se não estamos a melhorar, estamos a ficar para trás. Esse medo transforma práticas suaves em métricas duras. E quando o autocuidado é engolido pelo pensamento de desempenho, deixa de ser cuidado. Passa a ser mais um trabalho.

Como identificar a mudança e recuperar a tua rotina com suavidade

Uma forma prática de notar a mudança é fazer uma pequena experiência com as tuas próprias reações. Da próxima vez que saltares uma parte da rotina, pára e observa o que a tua mente faz. Sentes uma ligeira desilusão ou uma onda de vergonha? Começas imediatamente a planear como “compensar” amanhã? Essa urgência de compensar é sinal de que a rotina se tornou transacional, não nutritiva.

Outro teste: imagina fazeres o teu autocuidado sem público e sem registo. Sem app, sem tracker, sem fotografia. Continuarias a fazê-lo? Farias da mesma forma, pelo mesmo tempo? Se a resposta for não, provavelmente há uma camada performativa à volta. E, já agora, não há nada de “errado” nisso. Vivemos numa cultura que recompensa o bem-estar visível. Só dar nome a essa dinâmica já te dá um pouco de espaço para respirar.

Um passo pequeno e específico: escolhe uma prática esta semana que vais fazer de forma imperfeita, sem registar. Acende uma vela e lê até te aborreceres, não até o temporizador apitar. Caminha sem medir. Alongamentos sem sequência. Em vez de perguntares “Fiz bem?”, pergunta “Senti algum bocadinho de alívio?” Essa pequena mudança na pergunta é onde o autocuidado começa a voltar a ser ele próprio.

Num dia mau, a tua rotina pode transformar-se num pau com que te bates. É normalmente aí que a perfeição entra disfarçada com uma sweatshirt de wellness. Falhas um dia e a história na tua cabeça não é “estava cansada”; é “também estou a falhar em cuidar de mim”. Essa sensação de falhanço duplo é brutal. E, a nível humano, faz sentido: se estás habituada a ser avaliada em todo o lado, o teu cérebro espera avaliação aqui também.

Armadilha comum: tentar resolver isto adicionando mais rotinas. Sentes burnout, então empilhas exercícios de respiração, depois banhos de água gelada, depois um protocolo rígido de desaceleração. De repente, as tuas noites parecem um part-time em relaxamento. Quanto mais acrescentas, mais há para “acompanhar”, e mais fácil é sentires-te em atraso. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

É aqui que a gentileza tem de entrar, silenciosa mas firme. Quando a tua voz interior soa como um chefe a dar feedback trimestral sobre a tua meditação, algo não está bem. Não precisas de apagar todas as apps nem abandonar qualquer estrutura. Precisas de mudar quem está a segurar a prancheta na tua cabeça. Troca o inspetor por um amigo.

“A questão não é ‘Estou a fazer autocuidado corretamente?’, mas ‘Isto está mesmo a cuidar de quem eu sou hoje, e não de quem eu estou a tentar impressionar?’”

Um gesto simples e enraizador é introduzir “frases de permissão” na tua rotina. Antes de começares qualquer coisa, diz, com as tuas palavras: “Isto não tem de arrumar a minha vida.” Ou: “Posso parar se isto deixar de ser gentil.” Parece pequeno. Muda a atmosfera toda.

Para evitar que as coisas voltem a deslizar para o modo performance, agarra-te a algumas regras simples e discretas:

  • O autocuidado que resulta vai, às vezes, parecer preguiça visto de fora.
  • Não deves a ninguém uma versão polida da tua cura.
  • A monitorização pode ajudar, mas o feedback do teu corpo continua a valer mais do que os dados.
  • Descanso que não é “produtivo” continua a ser descanso.
  • Tens o direito de ultrapassar rotinas que antes te faziam sentir segura.

Deixa isto perto do teu dia a dia - numa app de notas, num post-it, ou repetido na tua cabeça quando a vontade de performar voltar.

Deixar o autocuidado ser pequeno, privado e gloriosamente nada impressionante

Há uma liberdade silenciosa em deixar que algumas partes da tua vida sejam não partilháveis e nada impressionantes. A sesta que não combina com a tua estética de hustle. O alongamento de cinco minutos feito com uma T-shirt velha, e não com um conjunto coordenado de treino. A página de diário desarrumada em que a letra se desfaz a meio. Estes momentos minúsculos e pouco fotogénicos são muitas vezes onde vive o cuidado real.

Quando o autocuidado deixa de ser uma métrica de performance, tende a encolher na escala e a crescer na honestidade. Talvez troques uma rotina “ideal” de 40 minutos que detestas por uma de 7 minutos que realmente fazes. Talvez deixes de perseguir a “perfeição da rotina matinal” e simplesmente bebas um copo de água antes do café. Num ecrã, essas escolhas não parecem grande coisa. Dentro do teu sistema nervoso, parecem uma trégua.

A nível coletivo, muitos de nós estamos exaustos de ter de ser “bons” em tudo, incluindo em descansar. Estamos cansados de transformar as nossas vidas em estudos de caso. Deixar o autocuidado fora do registo é uma pequena rebelião numa cultura que quer tudo medido e monetizado. Não é dramático. Ninguém aplaude. E, no entanto, algo amolece. E nesse amolecer, talvez finalmente notes: o teu valor nunca era suposto estar sujeito a avaliação.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Identificar sinais de alerta Sentimento de culpa, obsessão pelo acompanhamento, necessidade de “compensar” um dia falhado Dá nome a um mal-estar difuso e ajuda a identificar quando a rotina descarrila
Experimentar o “sem performance” Práticas feitas sem registo, sem público, sem objetivo numérico Abre a porta a uma forma de autocuidado mais livre e verdadeiramente repousante
Mudar o tom interior Passar do discurso de chefe para uma voz mais amigável e permissiva Reduz a pressão e permite recuperar prazer nos gestos do dia a dia

FAQ:

  • Como sei se o meu autocuidado é genuíno ou só para mostrar? Normalmente sentes a diferença no corpo. O autocuidado genuíno deixa-te um pouco mais suave ou mais estável, não a verificar ansiosamente como ficou ou se “conta”. Pergunta a ti própria: eu faria isto na mesma se ninguém nunca soubesse?
  • Registar os meus hábitos é sempre mau? Não. Registar pode revelar padrões e motivar mudanças. Torna-se inútil quando os números importam mais do que aquilo que realmente sentes, ou quando uma pontuação baixa consegue estragar o teu dia.
  • E se eu precisar de estrutura, ou então não faço nada? Mantém a estrutura, reduz a ambição. Uma ou duas ações pequenas e repetíveis funcionam muitas vezes melhor do que uma rotina longa e idealizada que te dá ressentimento. Começa por algo que consigas fazer até nos teus piores dias.
  • Como posso deixar de me sentir culpada quando falho a minha rotina? Tenta reformular como dados, não como falhanço: “Hoje o meu corpo escolheu dormir em vez de escrever no diário.” Depois recomeça no dia seguinte com suavidade, sem punição nem compensações. A consistência cresce mais depressa em ambientes com pouca culpa.
  • As redes sociais e o autocuidado podem mesmo misturar-se? Podem, se tratares o que publicas como um resumo de destaques, não como um livro de regras. Partilha se isso inspirar ou aproximar, mas deixa que o teu autocuidado real aconteça maioritariamente fora da câmara, onde não tem de impressionar ninguém - nem a ti.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário