The screen pisca. O zumbido pára. O seu cartão não volta.
Por meio segundo fica ali, com a mão estendida, como se a máquina estivesse apenas lenta ou tímida. Depois a fila atrás de si mexe-se, alguém suspira, e a pequena câmara por cima do teclado de repente parece um olho. Será que a máquina engoliu também o seu dinheiro? Há alguém a observar de dentro de um carro estacionado, à espera que entre em pânico e se vá embora?
Carrega no botão de cancelamento. Nada.
Uma mulher atrás de si inclina-se de lado, a tentar ver o ecrã sem ser mal-educada. Você murmura “Comeu-me o cartão”, como se dizê-lo em voz alta pudesse fazer a máquina devolvê-lo. A sua cabeça salta para os piores cenários: alertas de fraude, contas bloqueadas, chamadas embaraçosas para o call center do banco às 23h.
A máquina permanece em silêncio.
Alguns multibancos devolvem o cartão ao fim de um minuto.
Este não.
Quando a máquina bloqueia, o seu cérebro também
O choque vem primeiro.
A maioria das pessoas fica a olhar para o ecrã mais tempo do que percebe, na esperança de que o cartão deslize magicamente para fora se esperarem só mais um segundo. Sente-se preso ao sítio, meio envergonhado, meio com medo de se afastar caso o cartão apareça de repente e alguém o agarre. O ruído da rua desvanece-se e tudo o que ouve é o seu próprio pulso.
Essa pequena pausa é humana.
E é também aí que se infiltram más decisões: ir-se embora sem fazer nada, carregar em botões ao acaso, ou culpar alto e bom som o banco enquanto o seu cartão fica preso dentro de uma caixa de eletrónica que não controla. O verdadeiro jogo nesses primeiros 60 segundos não é sobre a máquina. É sobre conseguir clarear a cabeça o suficiente para dar o passo seguinte mais seguro.
Numa rua comercial movimentada em Manchester, uma enfermeira de 29 anos viu um multibanco engolir-lhe o cartão logo após o dia de pagamento.
Mais tarde contou que já tinha introduzido o PIN duas vezes porque o teclado “parecia não funcionar”. Um homem ali perto sugeriu que tentasse outra vez e depois ofereceu-se para “ajudar” carregando ele nos botões. Minutos depois, foi-se embora sem cartão. Dentro de uma hora, três levantamentos que nunca fez esvaziaram-lhe a conta.
Os investigadores do banco disseram-lhe algo que é silenciosamente verdade em todo o Reino Unido.
A maior parte da fraude em multibancos ligada a cartões “capturados” ou “retidos” começa na janela de confusão: aquele curto momento tenso entre perceber que o cartão ficou preso e agir corretamente. Não é a tecnologia. Não é um hack ultra-sofisticado. São apenas pessoas a hesitar, a adivinhar, ou a ouvir o desconhecido errado no pior momento possível.
Os multibancos são máquinas com regras muito simples.
Retêm o seu cartão se a sessão expira, se o sistema deteta algo estranho, ou se um pedaço de plástico barato foi enfiado na ranhura para o prender. O sistema em si não quer saber quem você é nem quão stressado se sente. Isso é ao mesmo tempo aterrador e reconfortante: não dá para negociar com um multibanco, mas também sabe exatamente que alavancas ainda pode puxar - o seu banco, o seu telemóvel, e o seu bom senso.
A lógica é dura.
Assim que o seu cartão está dentro dessa caixa, tem de agir como se ele já tivesse desaparecido, mesmo que o ecrã pareça amigável e o logótipo do banco seja familiar. O objetivo muda depressa: não é “recuperar o cartão”, é “torná-lo inútil para qualquer outra pessoa”. Quando o vê assim, os passos ficam muito mais claros, e o pânico tem para onde ir.
As ações mais seguras nos primeiros 10 minutos
Comece por congelar o cartão, ali mesmo no passeio.
Use a app do banco, se conseguir: quase todos os bancos do Reino Unido têm agora um botão “congelar cartão” ou “bloquear cartão” que demora segundos. Se não tiver a app, ligue para o número no ecrã do multibanco ou no verso do cartão (provavelmente sabe o número geral do banco de memória melhor do que pensa). Diga: “O multibanco reteve o meu cartão. Quero bloqueá-lo imediatamente.” Não espere para “ver se sai”. Trate-o como perdido no momento.
A seguir, afaste-se ligeiramente da máquina - mas mantenha-a à vista.
Esse pequeno movimento protege-o de duas coisas ao mesmo tempo. Dá-lhe espaço físico em relação à fila e a quaisquer “ajudantes” desconhecidos, e torna mais difícil alguém atrás de si espreitar o seu PIN por cima do ombro ou pairar sobre o teclado. Fique um pouco de lado, com as costas encostadas a uma parede ou montra, se possível, telemóvel na mão. Não está a abandonar o local. Está a criar uma pequena bolha de controlo num sítio que de repente parece um palco.
É aqui que muita gente comete erros evitáveis.
Deixam que o embaraço conduza o momento. Pedem desculpa à fila e apressam-se a ir embora, prometendo a si próprios que “tratam disso quando chegarem a casa”. Ou deixam outra pessoa assumir o comando - um transeunte aleatório a carregar em botões, um desconhecido a pedir para “verificar uma coisa” no leitor de cartões, até um amigo a ler em voz alta o saldo no ecrã. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
É assim que a informação vaza: o seu PIN, o seu saldo, o seu banco.
E quando essa informação sai, um cartão preso torna-se uma porta de entrada para burlas mais criativas. A regra mais segura soa brutal, mas funciona: ninguém toca nessa máquina ou na sua informação além de si e do banco. Ignore conselhos de desconhecidos para “tentar o PIN outra vez” ou “puxar com mais força”. Não está a ser mal-educado. Está a proteger o seu eu do futuro.
Um analista de fraude com quem falei foi direto:
“No momento em que a máquina fica com o seu cartão, imagine uma grande faixa vermelha por cima a dizer: ‘Este cartão está agora morto. O seu trabalho é torná-lo oficial antes que outra pessoa finja que ele ainda está vivo.’”
Depois de congelar ou cancelar o cartão, consegue pensar com mais calma.
O multibanco reteve o dinheiro além do cartão? O ecrã mostrou algum código de erro? Esses detalhes ajudam mais tarde. Se o dinheiro não foi dispensado, anote no telemóvel a hora, o local e o montante. Depois, se estiver à porta de uma agência e ela estiver aberta, entre e reporte pessoalmente. Caso contrário, fique onde está tempo suficiente para registar o incidente via app ou telefone.
- Congele ou cancele o cartão em minutos, não em horas.
- Afaste-se ligeiramente do multibanco, mas não desapareça da vista.
- Recuse “ajuda” de desconhecidos, por mais simpáticos que pareçam.
- Registe hora, local e o que a máquina mostrou.
- Verifique a sua conta mais tarde nesse dia à procura de levantamentos suspeitos.
Manter-se seguro depois de se ir embora
Depois de sair do brilho do ecrã do multibanco, a história ainda não acabou.
O seu cartão pode estar bloqueado, mas o rasto de dados dessa máquina ainda cruza o seu dinheiro. As próximas horas são de vigilância tranquila, não de pânico. Verifique a app do banco mais tarde nessa noite, e novamente na manhã seguinte. Procure não só grandes levantamentos misteriosos, mas também transações-teste de poucos euros - é assim que alguns burlões sondam um cartão roubado antes de avançarem a sério.
Numa terça-feira cinzenta em Leeds, um eletricista de 42 anos viu o cartão de débito da empresa ficar preso num multibanco de supermercado.
Cancelou-o no parque de estacionamento, foi para casa e achou que o drama tinha terminado. Dois dias depois, apareceu uma sequência de compras online: créditos de jogos, cartões-oferta, uma entrega de comida a 300 km. Os dados do cartão antigo já tinham sido copiados antes, e o momento do cartão “capturado” foi apenas parte de uma armadilha maior. O banco devolveu-lhe o dinheiro, mas o fluxo de caixa ficou arruinado durante uma semana enquanto tudo era investigado.
A lição esconde-se nesse intervalo entre “cartão perdido” e “problema resolvido”.
Trate os dias seguintes como um período de monitorização. Não de forma paranoica, a atualizar a app de cinco em cinco minutos, mas num ritmo deliberado de verificação. Manhã e noite chega bem. Se algo parecer estranho, por pequeno que seja, reporte como fraude relacionada com o cartão e mencione o incidente no multibanco. Os bancos ligam esses pontos mais depressa quando você explicita a cronologia.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Bloquear o cartão imediatamente | Usar a app ou ligar ao banco assim que o multibanco retém o cartão | Reduz o risco de alguém explorar o cartão ou os dados |
| Manter distância… e as suas informações | Afastar-se ligeiramente da máquina, recusar ajuda de desconhecidos | Protege o seu PIN, o seu saldo e os seus dados pessoais |
| Vigiar nos dias seguintes | Verificar a conta durante alguns dias para detetar operações-teste | Permite travar rapidamente uma fraude discreta antes de escalar |
FAQ:
- O banco consegue recuperar o meu cartão do multibanco?
Às vezes, se for uma máquina pertencente a uma agência e reportar rapidamente, podem recuperá-lo após verificações. Em muitos casos, no entanto, o cartão é destruído por motivos de segurança e é emitida uma substituição.- Devo voltar a introduzir o meu PIN se a máquina parecer bloqueada?
Não. Se a transação parecer congelada ou estranha, cancele se conseguir e pare. Voltar a introduzir o PIN repetidamente facilita a vida a quem esteja a tentar copiar dados ou espreitar por cima do ombro.- E se o multibanco ficar com o meu cartão e o meu dinheiro?
Registe a hora exata, o local e o montante e depois contacte o seu banco imediatamente. Eles conseguem ver se o dinheiro foi realmente dispensado e, normalmente, devolvem levantamentos falhados após investigação.- É mais seguro usar apenas multibancos do meu próprio banco?
Não é garantido, mas máquinas junto a agências bancárias, em zonas bem iluminadas e com CCTV, são geralmente menos atrativas para criminosos do que as isoladas em ruas vazias.- Preciso mesmo de verificar a minha conta depois de o cartão estar bloqueado?
Sim. Os dados do cartão podem ser copiados antes de ele ser capturado. Uma verificação diária rápida durante alguns dias ajuda a detetar pequenos pagamentos “teste” antes de se transformarem em algo maior.
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