”, eu já tinha 60 anos. Ri-me, fiz uma piada sobre preferir o que estivesse em promoção e parti outro para a frigideira. Ainda assim, aquela pergunta ficou comigo muito depois de os pratos terem sido arrumados e o café ter arrefecido.
Percebi que tinha passado uma vida inteira a comprar ovos, a cozinhá-los para os miúdos, para convidados, para manhãs barulhentas de domingo… sem nunca saber realmente o que significava a cor da casca. Como tantas coisas na cozinha, herdei hábitos, não conhecimento.
A curiosidade ganhou. Comecei a investigar, a perguntar a agricultores, a ler rótulos que tinha ignorado durante anos. E a resposta não se parecia nada com o que eu imaginara.
Então, o que é que realmente torna um ovo branco ou castanho?
No mercado de produtores, vi uma mulher pegar numa caixa de ovos castanhos e dizer, quase com orgulho: “Estes são mais saudáveis, são naturais.” O vendedor acenou com educação. A banca dele tinha caixas de ovos brancos e castanhos, bem arrumadas. Mesmo preço. Mesmo tamanho. Histórias diferentes na cabeça das pessoas.
Fiquei ali a ouvir, com a minha própria caixa na mão, e percebi que acreditara exatamente no mesmo durante décadas. Castanho tinha de ser melhor. Mais rústico. Mais “a sério”. Branco? Isso parecia-me supermercado, luz fluorescente, galinha anónima numa gaiola.
Por fim, o agricultor olhou para mim e encolheu os ombros: “Vêm de galinhas diferentes. Só isso.” O meu cérebro não aceitou logo.
Aqui vai a verdade básica: a cor da casca vem quase inteiramente da raça da galinha. Galinhas de penas brancas com lóbulos auriculares brancos tendem a pôr ovos brancos. Galinhas de penas ruivas ou castanhas com lóbulos auriculares mais escuros costumam pôr ovos castanhos. Algumas raças até põem ovos azuis ou verdes, graças a pigmentos diferentes depositados na casca à medida que ela se forma.
O interior - a parte que se come - é praticamente o mesmo. Proteína, gordura, vitaminas: não mudam por magia conforme a cor da casca. O que muda essas coisas é o que a galinha come, como vive e quão fresco é o ovo. A cor da casca é como a cor dos olhos: visível, útil para identificação, mas não é um “selo” de saúde.
E, no entanto, essa pequena mancha de pigmento moldou preços, estratégias de marketing e as nossas suposições silenciosas à porta do frigorífico. A casca conta uma história, mesmo quando está a mentir.
Sabor, nutrição e os mitos com que crescemos
Algumas semanas depois daquele momento no mercado, decidi fazer em casa um teste de sabor totalmente não científico. Duas caixas: uma de ovos brancos, outra de castanhos, ambas do mesmo produtor local. Parti-os para taças separadas, bati-os e fiz ovos mexidos em frigideiras iguais, com um pouco de manteiga e sal.
Servi-os a amigos sem dizer qual era qual. Metade jurou que os ovos castanhos eram “mais completos” e “mais ricos”. A outra metade votou nos brancos. Quando revelei que vinham todos da mesma quinta e tinham sido postos na mesma semana, a mesa ficou em silêncio. Alguém riu, envergonhado. Outra pessoa disse: “Pois… na minha cabeça, pareciam diferentes.”
É aí que vive grande parte da conversa sobre ovos: nas nossas cabeças.
Do ponto de vista nutricional, a investigação continua a dizer o mesmo: a cor da casca não é uma medida de valor nutricional. Ovos castanhos não são, por defeito, mais biológicos, nem os ovos brancos são automaticamente industriais ou “piores”. As diferenças nutricionais vêm da alimentação e do ambiente da galinha - mais verdura, insetos, espaço para se mexer - e não da cor da casca.
A cor da gema também engana muitos de nós. Uma gema bem alaranjada nem sempre significa “fresquíssimo do campo” ou “super saudável”. Muitas vezes reflete uma ração específica, como milho ou extrato de calêndula, escolhida simplesmente para dar aquele tom dourado de que os consumidores gostam. O marketing sabe o quanto comemos com os olhos.
Crescemos com mitos silenciosos: açúcar mascavado é melhor do que branco, pão integral é sempre mais saudável, ovos castanhos são mais autênticos. Às vezes isso é verdade. Com os ovos, a casca é sobretudo… pigmento. Nada mais heroico do que isso.
Como escolher ovos melhores (sem obsessão pela cor)
Quando o mito da cor da casca cai, fica a pergunta: o que é que realmente importa quando estamos diante daquele frigorífico cheio no supermercado? Há alguns gestos simples que mudam tudo no ovo que vai parar ao prato, muito mais do que “castanho vs. branco” alguma vez mudou.
Primeiro, veja o código impresso na casca ou na embalagem. Em muitos países, o primeiro número indica o método de produção: 0 para biológico, 1 para ar livre, 2 para criação em aviário, 3 para gaiola. Esse pequeno dígito diz mais sobre a vida da galinha - e muitas vezes sobre o sabor do ovo - do que qualquer cor.
Depois, procure a data de embalagem ou a data de validade. Ovos mais frescos mantêm melhor a forma, a gema fica mais alta, a clara é menos aguada. Para escalfados ou estrelados, o fresco ganha. Para bolos, ovos um pouco mais velhos podem funcionar lindamente. A cor da casca não entra na conversa.
Um hábito estraga silenciosamente muitas das nossas escolhas: pegamos na caixa mais barata sem sequer olhar para a origem. No entanto, de onde o ovo vem e quão longe viajou tem impacto direto na frescura. “Local” não significa automaticamente perfeito, mas viagens mais curtas muitas vezes significam menos tempo entre o ninho e a cozinha.
Os rótulos podem intimidar com carimbos, logótipos e letras minúsculas. Comece pequeno. Escolha uma coisa para ler: o número do modo de produção, ou o país de origem, ou a data. Da próxima vez, junte mais uma informação.
E digamo-lo claramente: ninguém fica no corredor a decifrar cada linha de cada caixa. Sejamos honestos: ninguém faz isso mesmo todos os dias. Mas se conseguir mudar a forma como escolhe ovos uma ou duas vezes por mês, isso já é um enorme progresso comparado com ficar preso ao branco vs. castanho.
Algumas pessoas quase se sentem culpadas quando mudam de ovos castanhos para brancos, como se estivessem a trair uma regra não escrita de “comer melhor”. Outras sentem-se enganadas quando percebem que pagaram mais por ovos castanhos só porque o mercado “sabe” que os compradores associam castanho a natural. Há uma camada emocional silenciosa nesta pequena compra diária.
Perguntei a um pequeno produtor o que achava de todo este drama à volta da cor da casca. Ele sorriu e disse:
“Se as pessoas se preocupassem metade com a forma como a galinha vive do que com a cor da casca, teríamos um sistema alimentar diferente de um dia para o outro.”
Quando tiver dúvidas, pense em três ângulos simples sobre os quais pode realmente agir:
- Como foi criada a galinha? (Veja o código de produção e certificações.)
- Quão fresco é o ovo? (Verifique as datas e, em casa, faça o teste da água.)
- A quem estou a pagar? (Uma quinta local, uma marca de supermercado, um rótulo premium?)
Num dia mau, isto tudo pode parecer demais. Num dia normal, porém, escolher ovos torna-se uma forma pequena e silenciosa de alinhar os hábitos com os valores, para além da superfície da casca.
O que muda quando finalmente deixamos de julgar pela casca
Quando se sabe que cascas brancas e castanhas são apenas genética da galinha, a prateleira dos ovos passa a parecer diferente. De repente, já não impressionam tanto as caixas de cartão “rústicas” e as cores terrosas. Começa-se a procurar algo menos glamoroso: informação real.
Algumas pessoas até redescobrem prazer em algo tão simples como fazer uma omelete. Experimentam ovos de quintas diferentes, prestam atenção à forma como a gema se comporta na frigideira, a como o cheiro enche a cozinha. A cor da casca torna-se quase decorativa - interessante, mas não decisiva.
Num nível mais profundo, esta pequena lição sobre ovos abre a porta a uma pergunta maior: quantas outras escolhas alimentares fazemos em piloto automático, com base em meias-verdades repetidas durante anos? É uma pergunta um pouco desconfortável. Também é libertadora. Podemos mudar hábitos em qualquer idade. Até aos 60, com a frigideira já quente e uma vida cheia de rotinas.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Origem da cor da casca | Ligada à raça da galinha, não à qualidade do ovo | Desfaz o mito “castanho = melhor” e evita pagar mais sem motivo |
| O que realmente influencia a qualidade | Alimentação, modo de criação, frescura, transporte | Ajuda a escolher ovos mais saborosos e mais coerentes com os seus valores |
| Leitura das embalagens | Códigos de produção, datas, origem, selos | Dá referências simples para retomar o controlo face ao marketing |
FAQ:
- Os ovos castanhos são mais saudáveis do que os ovos brancos?
Não por defeito. A nutrição é moldada pela alimentação e pelas condições de vida da galinha, não pela cor da casca. Uma galinha bem criada pode pôr ovos saudáveis, sejam brancos ou castanhos.- Porque é que os ovos castanhos são muitas vezes mais caros?
Algumas raças que põem ovos castanhos comem mais e são mais caras de criar, e muitas marcas usam cascas castanhas para sinalizar “rústico” ou “premium”. O preço mais alto não garante maior valor nutricional.- Os ovos castanhos sabem melhor?
A maioria dos testes às cegas mostra que as pessoas não os conseguem distinguir de forma consistente quando os ovos vêm da mesma quinta e têm a mesma frescura. As diferenças de sabor costumam vir da frescura e da alimentação, não da casca.- Como posso saber em casa se um ovo é fresco?
Coloque-o com cuidado num copo com água. Ovos frescos afundam e ficam deitados. Ovos mais velhos ficam na vertical ou flutuam. Se flutuar, provavelmente está na hora de o deitar fora.- O que devo ver na embalagem em vez da cor?
Verifique o código do modo de produção (0, 1, 2, 3), a data de embalagem ou validade e o país ou região de origem. Isso diz muito mais do que branco vs. castanho alguma vez dirá.
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