“E aí, precisamente quando toda a gente espera um sorriso, alguma coisa se contrai. Os olhos baixam, a mão desvia-se, cai a frase clássica: “Oh, não é nada”, “Eu não fiz nada.” O instante agradável transforma-se num mal-estar suspenso de que ninguém fala realmente. Porque é que algumas pessoas se sentem quase culpadas por receber elogios por algo que não “ganharam” com o suor do seu rosto? E se esse desconforto dissesse mais sobre a nossa relação com o mérito do que sobre o elogio em si?
Num jantar de aniversário cheio de gente, alguém levanta o copo na direção da Emma. “À Emma, que está absolutamente deslumbrante sem sequer tentar.” A mesa aplaude. Os telemóveis disparam flashes. Ela ri-se, mas a mão vai imediatamente ao cabelo, como se o quisesse esconder. As bochechas ficam-lhe vermelhas. “É só a luz”, murmura, devolvendo a atenção ao bolo. Era suposto o momento aterrar como um pequeno presente. Em vez disso, escapa-lhe como uma barra de sabão no duche.
No caminho para casa, ela volta a passar aquilo na cabeça. Porque é que uma única frase a deixou tão desconfortável? Porque é que “sem sequer tentar” é a parte que lhe fica entalada na garganta? Os elogios deviam ser leves, mas às vezes caem com peso.
Há uma tensão silenciosa escondida nestes momentos. E é mais comum do que parece.
Porque é que os elogios “não merecidos” são tão estranhos
Quando as pessoas são elogiadas por algo que não “construíram” ativamente - o rosto, a altura, o sotaque, até um temperamento calmo - acorda uma voz interior estranha. Sussurra: “Tu não trabalhaste por isto. Não mereces o crédito.” Essa voz pode ser surpreendentemente dura. Não quer saber se a outra pessoa teve boas intenções. Quer saber de justiça.
Muitos de nós crescemos com uma espécie de equação moral presa na cabeça: esforço é igual a valor. Suor é igual a legitimidade. Por isso, um elogio que salta a etapa do esforço soa a batota num exame. Mesmo que ninguém perca, parece injusto. O corpo regista esse pequeno desalinhamento, e o resultado é aquele encolher de ombros embaraçado, ou a piada para afastar o elogio.
Pense no Alex, 27 anos, que ouviu a vida toda que tem uma “presença natural de liderança”. No trabalho, os chefes dizem: “Tu tens aquele jeito, estás a ver?” Ele ouve isso em promoções, em conversas informais, até em avaliações de desempenho. No papel, parece um sonho. Na cabeça dele, é uma armadilha.
Ele consegue apontar colegas que ficaram até tarde, estudaram mais, fizeram cursos extra. E, no entanto, não são chamados de “líderes natos”. Por isso, quando alguém elogia a sua “autoridade natural”, ele sente-se culpado. Quase como se estivesse a roubar o crédito a quem se esforça mais. Em vez de se sentir orgulhoso, o instinto é desviar: “Sinceramente, eu só falo demasiado nas reuniões.” É a forma dele de devolver o elogio à mesa, como se nunca lhe tivesse pertencido.
A investigação sobre autoestima e sentimentos de “síndrome do impostor” volta muitas vezes à mesma tensão. Algumas pessoas só se sentem plenamente no direito de receber elogios quando os conseguem ancorar a um esforço visível: horas de prática, anos de estudo, um percurso longo e doloroso. Quando o elogio vai diretamente para “tu” em vez de “o teu trabalho”, sentem-se expostas - como se alguém tivesse aberto uma cortina que elas não consentiram levantar.
Há também uma camada cultural. Em muitas famílias, ensina-se as crianças a não “ocuparem espaço” e a manterem-se humildes. Não fiques convencido(a). Elogios sobre traços não conquistados carregam exatamente nesse nervo. A mente conclui: se eu aceitar isto, estou a dizer que sou melhor do que os outros numa coisa que não mereci. Isso soa moralmente errado. Então, a defesa mais fácil é o desconforto - e depois a esquiva.
Como responder sem trair quem és
Um método simples, quase desarmantemente eficaz, é dividir o elogio em duas partes na tua cabeça: a parte sobre ti e a parte sobre a intenção da outra pessoa. Podes não concordar totalmente que “mereces” o elogio. Tudo bem. Mesmo assim, podes reconhecer a intenção por trás dele. Uma forma prática é responder em dois tempos: primeiro, um “Obrigado(a)” curto; depois, uma ponte de volta ao momento.
Por exemplo: “Obrigado(a), é muito simpático da tua parte dizer isso. Fico contente por teres reparado.” Ou: “Obrigado(a), vindo de ti significa muito.” A primeira parte respeita o gesto. A segunda volta a ligar-te à pessoa, em vez de ficares preso(a) numa auditoria moral interna. Mesmo que um elogio toque numa coisa pela qual não trabalhaste, podes tratá-lo como informação: esta pessoa vive-te de forma positiva. Isso, por si só, tem valor.
Num plano mais prático, podes antecipar os contextos que te deixam mais desconfortável. Há quem se sinta estranho com elogios à aparência. Outros, à inteligência, à facilidade social, ou ao sucesso financeiro. Quando identificas as tuas “zonas quentes”, podes preparar algumas respostas padrão que soem honestas sem serem autodestrutivas.
Por exemplo, se alguém elogiar a tua pele e isso te fizer encolher por dentro, podes dizer: “Obrigado(a), acho que tive sorte com a genética.” Curto, verdadeiro, sem auto-ataque. Ou quando alguém diz: “Tu és naturalmente bom/boa com pessoas”, podes responder: “Obrigado(a), aprecio isso. Tento mesmo ouvir com atenção.” Reformulas suavemente o elogio para algo que podes assumir: a tua atitude, as tuas escolhas.
Sejamos honestos: ninguém faz isto na perfeição todos os dias. Na maior parte do tempo, entramos em pânico e murmuramos qualquer coisa. Está tudo bem. O objetivo não é tornarmo-nos atletas impecáveis de elogios. O objetivo é passar da rejeição automática para uma receção um pouco mais consciente.
Uma armadilha mental que alimenta o desconforto é a ideia de que aceitar um elogio significa concordar com ele a 100%. Não significa. Podes deixar as palavras assentar sem assinar um contrato. Uma reformulação útil é: “Isto não é um veredicto, é uma perspetiva.” Quando vês assim, há mais espaço para respirar.
“Um elogio tem menos a ver com quem tu és e mais com a forma como a tua presença faz alguém sentir-se num determinado momento.”
Pensar desta forma ajuda-te a mudar do autojulgamento para a curiosidade. Porque é que esta pessoa me vive assim? O que é que isso diz sobre a nossa relação, os valores dela, ou a situação?
- Tenta ver os elogios como instantâneos, não como radiografias da tua alma.
- Permite-te dizer “obrigado(a)” antes de o teu cérebro começar a complicar.
- Repara em que elogios rejeitas mais depressa - eles revelam crenças escondidas.
Viver com a tensão em vez de a combater
Num plano mais profundo, este desconforto expõe como hierarquizamos partes diferentes de nós. Aquilo que estudámos, treinámos, suámos, parece “limpo”. Os traços que surgiram por nascimento ou sorte parecem suspeitos. Essa hierarquia interna não desaparece de um dia para o outro. Mas podes começar a notar quando é ela que manda.
Uma pequena experiência: da próxima vez que alguém elogiar algo por que não trabalhaste, faz uma pausa de uma respiração antes de responder. Nessa respiração, diz silenciosamente: “Eu não criei isto, mas posso ainda assim ser grato(a) por existir.” Essa mudança mental minúscula impede-te de cair na vergonha ou numa culpa estranha. Não estás a gabar-te. Só não estás a bater a porta.
Todos já tivemos aquele momento em que uma palavra gentil acerta exatamente na parte de nós com que não sabemos o que fazer. Uns vão continuar a desviar para sempre. Outros vão para o extremo oposto e começam a colecionar elogios como troféus. Entre esses polos, há um caminho mais silencioso: reconhecer o papel do acaso e do privilégio, e ainda assim permitir que as coisas boas sejam ditas em voz alta.
Quando alguém te diz: “Tens sorte em ter uma energia tão calma”, podes concordar por dentro: sim, a sorte conta. Talvez a genética. Talvez a infância. Talvez pura aleatoriedade. E, ao mesmo tempo, podes escolher o que fazes com esse traço agora. Como o usas. Quem beneficia dele quando entras numa sala ou numa conversa difícil.
Os elogios que tocam nas partes “não conquistadas” lembram-nos: não somos apenas projetos feitos por nós próprios. Somos também uma mistura de história, biologia, timing e surpresa. Isso pode ser estranho quando gostas da narrativa do esforço puro. Também pode ser, de certa forma, libertador. Não tens de justificar tudo o que é bom em ti com uma história de desgaste.
Aceitar um elogio não apaga desigualdades nem substitui trabalho duro. Só significa que estás a permitir que outro ser humano expresse como te vive. E talvez, devagar, possas deixar que esses momentos amaciem as arestas desse contabilista interno rígido que mede quem merece o quê.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Esforço vs. mérito | Muitos ligam o valor pessoal apenas ao trabalho realizado | Compreender porque certos elogios criam desconforto |
| Respostas concretas | Preparar frases simples para aceitar sem se trair | Lidar com elogios com mais calma no dia a dia |
| Mudança de perspetiva | Ver o elogio como uma perspetiva, não como um julgamento absoluto | Aliviar a pressão interior e acolher mais benevolência |
FAQ:
- Porque é que me encolho quando alguém elogia a minha aparência? Podes sentir um desfasamento entre o elogio e a tua narrativa interna sobre “merecer” elogios. A aparência parece não conquistada, por isso o cérebro sinaliza-o como atenção injusta. É uma reação comum, não um defeito pessoal.
- É mal-educado rejeitar um elogio? A maior parte das pessoas oferece elogios como um presente. Descartá-los pode soar a que estás a rejeitar quem dá, não apenas as palavras. Um “obrigado(a)” breve costuma ser o meio-termo mais gentil.
- Como posso aceitar elogios sem parecer arrogante? Foca-te na gentileza da outra pessoa em vez do teu próprio valor. Pensa: “Ela está a partilhar como se sente”, e responde ao gesto, não ao debate sobre se mereces.
- E se eu discordar mesmo do elogio? Ainda assim podes dizer “obrigado(a)” e manter a tua perspetiva em silêncio. Se for preciso, nuanceia com delicadeza: “És muito simpático(a), ainda estou a aprender, mas agradeço que digas isso.” Não é preciso discutir.
- Posso mudar a forma como reajo ao longo do tempo? Sim. Com pequenas experiências - pausar, respirar, usar frases preparadas - o teu sistema nervoso aprende que aceitar um elogio é seguro. O desconforto raramente desaparece de um dia para o outro, mas pode suavizar bastante.
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