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Achamos que ajudamos, mas prejudicamos: a verdade sobre alimentar aves no inverno, segundo especialistas.

Pessoa alimentando pássaro num jardim com sementes e pão, junto a uma casinha de madeira para pássaros.

A primeira vaga de frio chega durante a noite. De manhã, o jardim parece congelado a meio de uma inspiração: relva rígida, um bebedouro para pássaros transformado em vidro, um pisco-de-peito-ruivo a saltitar no relvado gelado como se estivesse a andar sobre pregos. Dentro da cozinha, a cena parece quase ensaiada. Uma mão na chaleira, a outra a espalhar ao acaso uma mistura de côdeas de pão e restos de cereais no pátio “para os pássaros”.

Há um pequeno arrepio de entusiasmo quando a primeira chapim-azul pousa. Depois um melro. Depois um turbilhão de asas, como se tivéssemos aberto um pequeno e educado restaurante para a vida selvagem.

Dizemos a nós próprios que estamos a fazer uma coisa boa.

E se estivermos, silenciosamente, a fazer o contrário?

Porque é que a nossa “bondade” pode, discretamente, sair pela culatra para as aves no inverno

Basta olhar pela janela num dia gelado para ver a mesma cena repetidas vezes. Um pássaro, eriçado como uma bola de ténis, bico enfiado nas penas, a gastar reservas só para se manter vivo. Sente-se aquele aperto no peito e pensa-se: “Devem estar a morrer à fome, vou dar-lhes alguma coisa, o que houver.”

Esse impulso é profundamente humano.

O problema começa quando esse “o que houver” se transforma na nossa estratégia de alimentação no inverno.

No Reino Unido, inquéritos mostram que mais de metade das famílias põe comida para as aves nos meses frios. São milhões de jardins, varandas e parapeitos de janela convertidos em postos de alimentação improvisados. As vendas de bolas de gordura, misturas de sementes e blocos de sebo disparam sempre que uma frente fria aparece na previsão.

Mas os centros de recuperação de fauna selvagem contam um outro lado da história. Vêem tentilhões com doenças contagiosas disseminadas em comedouros sujos. Gaivotas e pombos a chegar inchados e doentes por viverem quase só de pão branco. Crias alimentadas com gordura de bacon e batatas fritas, porque os pais foram atraídos para hábitos aprendidos no inverno.

Achamos que estamos a ajudar. Por vezes, estamos a treiná-las a depender de comida lixo.

Os especialistas dizem que o verdadeiro perigo não é alimentar as aves - é como e o quê lhes damos. Alimentos demasiado salgados, bolorentos ou nutricionalmente pobres podem prejudicar corpos minúsculos que funcionam a uma velocidade espantosa. O coração de uma pequena ave de jardim pode bater mais de 1.000 vezes por minuto e precisa do combustível certo, não do que sobrou na tábua de cortar.

Há também o problema da aglomeração. Um comedouro demasiado cheio e raramente limpo atrai muitas aves para um espaço apertado. Parasitas e vírus espalham-se depressa quando todos os bicos tocam a mesma superfície pegajosa o dia inteiro.

Alimentar pode ser uma tábua de salvação em tempo duro. Feito de forma errada, torna-se uma ameaça lenta e invisível.

Como alimentar aves no inverno sem lhes fazer mal

A forma mais segura de alimentar no inverno começa com uma ideia simples: imitar a natureza, não substituí-la. Isto significa comida energética, semelhante ao que as aves poderiam encontrar no meio natural, oferecida em comedouros limpos e bem colocados. Pense em misturas de sementes de qualidade, amendoins sem sal, sementes de girassol descascadas, blocos de sebo sem “extras” desnecessários.

Vá alternando o local onde pendura os comedouros para que os dejectos não se acumulem sempre no mesmo pedaço de solo. Se puder, divida a comida por dois ou três pontos pequenos, em vez de um “buffet” sobrecarregado. Assim reduz-se a multidão e o stress.

E dê-lhes sempre uma rota de fuga. Os comedouros devem ficar suficientemente perto de arbustos ou sebes para uma fuga rápida para segurança, mas não enfiados lá dentro.

A maioria das pessoas não percebe que o comedouro sujo, e não o ar frio, é muitas vezes o verdadeiro perigo. Uma rotina simples ajuda: uma vez por semana (mais ou menos), retire os comedouros, esvazie a comida antiga e esfregue com água quente e detergente. Enxague, seque, volte a encher. Parece picuinhas - e sim, são dez minutos que preferia passar no sofá.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

Ainda assim, essa limpeza ocasional pode reduzir drasticamente o risco de infecções desagradáveis como a tricomonose em tentilhões. E se a comida parecer húmida, empapada ou com bolor, não está “um bocadinho velha” - é um problema. Melhor no lixo do que no estômago de uma ave.

Os especialistas falam sem rodeios sobre o que não se deve deitar cá para fora. Snacks salgados, pele de bacon, restos temperados e grandes pedaços de pão estão todos na lista vermelha. O pão não é veneno, mas é como alimentar crianças apenas com bolachas de água e sal durante todo o inverno: enche, mas não nutre.

“As pessoas imaginam as aves como pequenos trituradores de lixo”, disse-me um reabilitador de fauna selvagem. “Não são. São atletas. No inverno, cada bocado conta.”

  • Bons combustíveis de inverno – Sementes de girassol descascadas, sementes variadas, nyjer para tentilhões, amendoins sem sal, sebo e bolas de gordura sem rede.
  • Alimentos a repensar – Grandes quantidades de pão, arroz cozido, misturas baratas cheias de trigo e pedaços coloridos que as aves acabam por deitar fora.
  • Más ideias sem discussão – Snacks salgados, comida com bolor, carne temperada, coco seco e desidratado, qualquer coisa com cordel ou rede/plástico preso.

Alimentar as aves sem lhes quebrar o lado selvagem

Há uma linha discreta entre ajudar a vida selvagem e domesticá-la por acidente. Se ficar demasiado perto do comedouro todos os dias, se atirar comida do mesmo sítio, à mesma hora, com o mesmo assobio, vai lentamente treinar as aves a centrar a vida em si. Algumas pessoas adoram isso. Outras sentem um desconforto estranho quando um pisco-de-peito-ruivo quase pousa na mesa da cozinha.

Os especialistas sugerem um caminho do meio. Alimente de forma regular nos meses mais duros, mas não tão generosamente que as aves de jardim se esqueçam de procurar alimento. Vá reduzindo quando a primavera aquece e a comida natural regressa. Você é uma rede de segurança, não o céu inteiro.

Para além da comida, há outras formas de lhes facilitar o inverno sem criar uma dependência tão intensa. Deixar as cabeças de sementes em plantas secas, permitir que um canto do jardim fique mais “selvagem”, ou empilhar uma pequena pilha de troncos significa que insectos, abrigo e petiscos naturais continuam disponíveis. Um prato raso com água limpa e não congelada pode ser tão valioso como um comedouro em certos dias.

Uma verdade simples que a maioria dos especialistas partilha: não tem de fazer tudo na perfeição para fazer realmente bem. Um jardim um pouco despenteado, com cobertura, insectos e alguns pontos de alimentação seguros, pode superar silenciosamente o pátio mais arrumado com um único comedouro usado em excesso.

Todos já estivemos lá: aquele momento em que olha para um passarinho numa tempestade e se sente meio responsável pela vida dele. Esse sentimento pode levar a escolhas generosas - ou a escolhas em pânico. O verdadeiro cuidado vive algures no meio.

Alimentar aves este inverno pode ser um ritual bonito e partilhado. Pode reconectá-lo com o tempo, a luz do dia e as pequenas vidas que continuam a voar por cima dos nossos terrenos vedados. Também pode, sem intenção, transmitir-lhes os nossos piores hábitos - o amor pela conveniência, o desperdício, a ideia de que mais é sempre melhor.

A pergunta não é “Devemos alimentar as aves?” É “Estamos a alimentá-las como se fossem selvagens?”

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Alimentação inteligente no inverno Use alimentos energéticos, ao estilo natural, em comedouros limpos e bem colocados Apoia a saúde das aves sem danos ocultos
Evite erros comuns Evite restos salgados, com bolor ou pobres em nutrientes e comedouros sobrelotados Reduz o risco de doenças e a dependência nas populações locais
Pense para além da comida Disponibilize água, abrigo e cantos mais “selvagens” no jardim Cria um habitat resiliente e mais natural todo o ano

FAQ:

  • Pergunta 1 As bolas de gordura são seguras para as aves no inverno? Sim, desde que sejam de alta qualidade, sem sal e sem rede de plástico. Pendure-as num comedouro ou numa gaiola, não na rede em que são vendidas, para que as aves não fiquem com patas ou bicos presos.
  • Pergunta 2 O pão é mesmo mau para as aves? Pequenas quantidades de pão simples e duro (não bolorento) não matam as aves, mas não lhes dá o que precisam. Se oferecer, mantenha o mínimo, rasgue em pedacinhos e acompanhe sempre com comida mais nutritiva.
  • Pergunta 3 Com que frequência devo limpar os comedouros? Idealmente uma vez por semana no inverno, ou mais vezes se houver muitas visitas. Use água quente com detergente e uma escova, enxague bem e deixe secar antes de voltar a encher para reduzir riscos de doença.
  • Pergunta 4 Qual é a melhor hora do dia para alimentar as aves? De manhã cedo e ao fim da tarde são momentos-chave, porque as aves precisam de energia depois das noites frias e antes da próxima. Não tem de ser exacto, mas tente manter uma rotina relativamente constante durante o mau tempo.
  • Pergunta 5 Devo parar de alimentar na primavera e no verão? Pode reduzir quando a comida natural se torna abundante, mas não tem de parar completamente. Foque-se em sementes de boa qualidade, evite gorduras em dias muito quentes e mantenha a higiene.

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